EM BUSCA DAS “PAISAGENS EXTRAVIADAS”

•Julho 8, 2011 • Deixe um Comentário

Maria Luiza Berwanger da Silva

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Em Koa’E, toda busca das “paisagens extraviadas” configura o poeta como arqueólogo que percebe, no larvar e no primitivo, a matriz de irradiação poética do lugar, como o próprio Luis de Serguilha o intitula de “lugares inescritos” (p. 408), na certeza de aí surpreender a “pulsação do inescrito” (p. 444) : o poeta considera  o pulsar como instância que ressimboliza tempos, espacialidades e sentimentos. Imagens como as de “transmutar” (p. 307), “transmudar” (p. 313), “transmigrar” (p. 368), “transbordar” (p. 374), bem como a de “transluzir” (p.   ) configuram o gesto poético primeiro de um movimento outro, de uma modulação outra aquém e além do traço crítico da transgressão  , enquanto um dos traços nucleares e definidores da Arte Contemporânea.

Vistas deste ângulo, reflexões como a de Gérard Genette, em Figuras I, quando, em Espaço e Linguagem, insinua a substituição de espaço por “espacialidade”, para representar o lugar amplo e polissêmico do espaço na Arte de hoje, bem como as de Jacques Derrida em Shibollet, onde evidencia a transgressão de limiares geográficos e subjetivos como traço produtivo para o saber artístico e não artístico, ou as de George Steiner, nas palavras sobre o eixo do extra e do transterritorial, para quem “la vie des arts vit dans une extraterritorialité”, este conjunto teórico não  traduz o sentido da busca das “paisagens extraviadas”. A obra Koa’E, de Louis de Serguilha inclui-se na fisionomia contemporânea do “profanar”. Como o define Giorgio Agamben:

[...] A profanação implica, por seu turno, uma neutralização daquilo que profana. Uma vez profanado, aquilo que estava indisponível e separado perde a sua aura e é restituído ao uso. [...] Contudo, profanar não significa, apenas, abolir e cancelar a separação, mas também aprender a dar-lhe um novo uso, a jogar com este (AGAMBEN, 2005, p. 109-125).

Transgredir para profanar, eis o itinerário da peregrinação poética efetuado pela dicção lírica universalizante de Louis de Serguilha. Instalo-o no desdobramento dos “gigantes mergulhados nos anos, épocas tão distantes vividas por eles, entre as quais tantos dias vieram se colocar – no Tempo” (p. 796) de Marcel Proust, nesse parágrafo conclusivo de Em busca do tempo perdido, igualmente no espaço aquém e além do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, quando diz: “Cheguei àquele ponto em que o tédio é uma pessoa, a ficção encarnada do meu convívio comigo” (1998, p. 345), projeto poético residual de Koa’E que, lembrando o elogio ao primitivo de Maurice Blanchot às cavernas de Lascaux, nas quais este crítico vislumbra o lugar do nascimento da arte, atravessa a obra Le Temps Sensible de Julia Kristeva, mediado pela abrangência inesgotável da experiência do vivido , ainda vindo a incidir   no desdobramento e na escavação abissal do espaço intervalar ou “tierce forme” com que Roland Barthes tentou definir a experiência prousteana, no ensaio Longtemps, je me suis couché de bonne heure.

Percebe-se que o caminho trilhado por Koa’E articula-se com base em duas forças articuladoras: o desassossego e a dança, em ritmo de perfeito entrecruzamento que tece e destece o espaço de Koa’E, intermediando, lenta e gradualmente, o mergulho na interioridade da terra:

A poesia reconstitui-se na língua anterior ao conhecimento e esculpe as suas sismologias-tapeçarias no mundo-outro como uma partilha do desassossego, uma sanguinidade do poema-poeta-poesia-liberdade na exploração mutual do enigma, na germinalidade do deserto, na actualização do silabário elementar da harmonia e da vertigem fertilizadora-sacralizadora do olhar-perdido-do(no)-mundo. [...] (SERGUILHA, 2011, p. 109).

Ou ainda na passagem:

Os cavalos-poetas-surfistas entregam-se à geografia dos fluxos do invisível, do desassossego poético aliado aos mistérios da natureza, ao poema antropofágico que agita e explora a matéria da luz, da sombra, do espaço, do tempo, da gestação ardente das escrituras-pyroclastic (SERGUILHA, 2011, p. 102).

bem como em: “[...] aspira o desassossego do cosmos de Gaia”, fragmentos que representam o simbolismo do desassossego pela constatação do imaginário estabelecido a ultrapassar.

Já a  vitalidade da dança , por sua vez , consiste em se fazer mediadora deste movimento de errância e de transmutação com vistas a efetuar práticas outras além do exercício da transgressão. Figuras como as das “coreógrafos-dançarinos” (p. 47), as das “bailarinas espontâneas” ou a das “processionárias” (p. 293) e as dos “bailados dos animais polares” (p. 76) recolhem da imagem da dança o desejo de inventar a contemporaneidade poética. Neste sentido, se, pelo simbolismo do desassossego, Luis Serguilha transgride o cânone, o instalado e o visto, pelo simbolismo da dança, este poeta ingressa em certo espaço transgredido, profanando-o.

Visto desta perspectiva, à força desestabilizadora do tédio como figura exemplar do desassossego pessoano,  Koa’E superpõe a voz da fertilidade que Luis Serguilha extrai das camadas arqueológicas a percorrer. Ressignificação existencial captada do exercício obstinado do escavar, o conjunto de poemas de Koa’E impõe ao leitor uma postura de infatigável desinstalar-se: transparências evidentes da textualidade pessoana surpreendem-nos sob forma de provocação que estampam impactantes itinerários ainda à espera de transfiguração artística, como que certa matéria bruta sobre a qual o olhar teórico, critico e poético ainda não se projetou, certo renascer a despertar aquém e além do visto, do sentido e do experimentado ou, dito de outro modo, material vulcânico residual a ser examinado metaforicamente e que revela consciência do fato artístico – produto de saberes simbólicos e não simbólicos dispostos em intersecção.

Quando “profanar” remete ao projeto de resgatar o “extraviado”, (a exemplo das “paisagens extraviadas”), trata-se de nelas dar a perceber zonas de silêncio. Portanto, se a transgressão libera recriando limites, a profanação funda territórios do imaginário. “Extraviado”, pois, não como recuperação do tempo perdido e reencontrado, mas como plenitude lírica a ser tecida, no silêncio de um movimento dançante que lembraria a reflexão de Paul Valéry de que “la danseuse n’est pas une femme qui danse” e que ressurge na obra Le danseur des solitudes de Georges Didi-Huberman (2006) nas palavras com que busca configurar a imobilidade espacial em seu gesto de produtiva e obstinada procura de fertilidade, de mediatizar singulares re(nascimentos):

J’ai vu, un jour, dans les Alpujarras, un oiseau immobile dans le ciel. C’était un petit rapace. Son corps, à mieux y regarder, esquissait bien quelques gestes intimes : juste ce qu’il fallait pour demeurer dans le ciel en un point aussi précis qu’intangible. Sans doute était-ce le sitio convenable pour bien guetter sa proie. Mais il lui avait fallu, pour cela même, renoncer à voler vers un but, ne surtout pas « fendre l’air », tout annuler pour un temps indéfini. C’est parce qu’il s’était placé contre le vent – parce que le milieu, l’air, était lui-même en mouvement – que le corps de l’oiseau pouvait ainsi jouer à suspendre l’ordre normal des choses et à déployer cette immobilité de funambule, cette immobilité virtuose. Voilà exactement, me suis-je dit alors, ce que c’est que danser : faire de son corps une forme déduite, fût-elle immobile, de forces multiples (DIDI-HUBERMAN, 2006, contracapa).

Como  relocalizar este traço paradoxal da dança, o da aparente imobilidade , em Koa’E? Trata-se de atravessar distâncias em busca dos “lugares inescritos” com base no próprio atravessar de geografias estabelecidas, como no fragmento sobre Gaia, lugar de “pulsação do inescrito”, ou seja, da Gaia ainda a percorrer e a traduzir sob forma de palavra nomeada sobre o oco vazio e silencioso da terra:

GAIA-caminheira-esvoaçante-lendaria-epidérmica

a descruzar os trópicos-projectores

das escrituras geográficas e os venenosos esconderijos

das garras-dos-caranguejos-iridiscentes atravessam as

gôndolas esguichadas dos seios

como um formigueiro-estertor na geografia subterrânea das iluminuras

como hélices-dos-tinteiros a fertilizarem as tapeçarias-dos-bichos

das sementeiras até ao sangue dos

utensílios das raízes-cometas: trajectórias nativas das

gelosias a auscultarem

os cios pendulares

dos tigres inaugurais:

[...] (SERGUILHA, 2011, p. 452-453).

do mesmo modo na passagem:

     ____ paisagem-GAIA-vocabular

a estrangular/fincar a transfusão-cevadura das

locomotivas infinitas dos vulvários (opulenta espadana):

                  ____ fertilidade das antenas-danças-

torrenciais-insubordinadas:

[...] (SERGUILHA, 2011, p. 461).

culminando na reflexão poética:

Os poetas-cavalos-sonâmbulos criam LAHARS contra os sistemas explicativos, teoréticos porque reconciliam a luminosidade e a escuridão, os cruzamentos da agramaticalidade, as mutações da plasticização, as perspectivas abissais, as correspondências metamórficas com as cavalgadas-flutuações radicais constituídas pela força da linguagem, pelo desassombro selvático, pela metamorfose contínua da navegabilidade labiríntica, pelos espelhos do desabrochamento da vida: os espelhos do pensamento-mundo, do silêncio da palavra-imagética, da dança-caleidoscópica. A liberdade do corpo vivo do poeta-cavalo-surfista está nas transferências poemáticas-divinas-selváticas, na música do coração do mundo. [...] (SERGUILHA, 2011, p. 95-96). 

Surpreendem, em Koa’E, as associações de imagens produzidas pelo jogo articulado entre o desassossego e o dançar, jogo que, por força de abrangência e de polissemia infinitas, efetuam aproximações e diálogos de natureza intertextual e interdisciplinar. Mistral constitui uma amostragem exemplar do processo imagético no diálogo estabelecido, entre tantos outros, com a poesia de Lautréamont (p. 26) e o cinema de Akira Kurosawa (p. 27). A composição singular da autorreferencialidade,  enquanto teoria da arte literária nomeada sobre a página , evidencia uma outra face da poética da poética de Luis Serguilha em Koa’E: tanto a expressa isolada do texto sob forma de nota introdutória explicativa, quanto a dilui textualmente em gesto que intensifica o prazer da descoberta simbólica concedida pela leitura:

A pulsionalidade das escrituras-pyroclastic circula no centro da matéria, nas tonalidades cósmicas, nas transfusões dos magmas secretos, na dramaticidade da adivinhação onde os cavalos-sonâmbulos-poetas e os poetas-surfistas celebram a catarse resplandecente, a reconquista sacralizadora das origens como o alfabeto da interioridade primordial a fundir-se e a regenerar-se nas correspondências edênicas na energia primitiva, nas combustões das polaridades, na atmosfera orgânica-virginal: eis a linguagem da ambiguidade do deserto erótico-meteórico-musical-isossístico e integrador da visão do absoluto. Cavalos-poetas-surfistas-sonâmbulos a hibridizarem-se na dramatização transformadora do mundo. As cavalgadas e as flutuações reinauguram o simulacro-do-simulacro como a iluminação do impossível diante das infravisualidades, transculturalidades da Mãe-Natureza e da sombra-que-abre-a-sombra. As arquitecturas da enfabulação deflagram-se nas teias das incubações do inconsciente, nas imersões violentas da árvore do corpo, no desapossamento, na ciclicidade subversiva, na eclosão dos espelhos, nas fissões atômicas que antecipam a obscuridade orgânica-ciclônica das escrituras-pyroclastic….. (SERGUILHA, 2011, p. 93-94).

É este fio do pensamento translúcido que lhe assegura lugar na dita “república mundial das letras”. Deste modo, entrelaçamento de campos simbólicos e não simbólicos, de um lado, e tecitura imagética como constelação no rastro de Mallarmé e das “galáxias” na transparência de Haroldo de Campos,  de outro lado , mediadas pela visualidade autorreferencial consolidam-lhe o perfil de poeta de hoje e de evidente inserção na comunidade poética   universal. No fundo, imagem e autoexplicação de imagem confluem no desejo de efetivar certa experiência subjetiva que encontra em Georges Bataille sua tradução a mais exemplar quando este crítico diz em L’Expérience Intérieure (1954): “L’expérience intérieure est la dénonciation de la trêve, c’est l’être sans délai [...]. Principe de l’expérience intérieure: sortir par un projet du domaine du projet”.

Na caracterização de Luis Serguilha, os Lahars (ou críticos dos “poetas surfistas”) insistem nesta “experiência da imaginação”, reveladora desta ‘’ expérience inte´rieure  ” :

[...] na caminhada devoradora e criadora do fogo da presença-ausência, nos GIPSOS-LAHARS, das escrituras-pyroclastic do possível e do impossível que irrompem no lugar dramático-primitivo onde as plasticidades das cosmovisões, a cinematografia pensante do universo, o limite dos limites, as navegações cósmicas enfrentam a sedução da vertigem, as aberturas permanentes da indefinição e do inexplicável com as linguagens encantatórias dos rituais libertadores da arte da vida. Urge a I-MERSÃO de LAHARS com a potência da substância do mundo, a materialidade flamífera, a geografia celeste, o subsolo terrestre, as circunvoluções alucinantes, a projecção do mundo fractal das caracterizações do desejo, ultrapassando as explicações, os convencionalismos. Aqui despertamos o sublime da massa caótica dos signos e a explosão das energias cosmogónicas que nos provocam a sensação do invisível, dos andamentos utópicos, dos confrontos com o nada, com a incógnita, com os ritmos das danças sacrais. [...]

[...]

Os LAHARS dos cavalos-poetas-surfistas-sonâmbulos projectam a profunda imersão corporal, a encruzilhada de sentidos e de não sentidos, a fantasmagoria polissémica, os jogos prismáticos da descoberta do mundo. Esta energia transmutadora busca a fascinação do vazio, os mapas arboriformes dos espelhos ocultos das palavras, a unidade original da TERRA-MÃE onde a metamorfose é uma vastíssima e sedutora força sobre o deserto sonâmbulo, um grito ardente no batimento arquitectónico do universo: aqui a teatralidade do desejo, a máquina desejante das fusões imaginárias tentam traçar a mineralização do silêncio informulável, a invenção profunda, as aberturas epidérmicas-explosíveis da língua na língua: eis as escrituras da parábola nas tonalidades do desassossego e na emancipação selvática do poeta-surfista, poeta da diversidade instantânea (SERGUILHA, 2011, p. 96-98).

Sob  justamente  a figura dos Lahars, compreende-se se a função do poeta-crítico e do crítico-poeta articulada pela liberalidade da experiência como estratégia de diluição e, pois, de superação do desassossego pessoano cedendo espaço ao trabalho fertilizador da dança com vistas a recartografar as  “paisagens extraviadas”. Uma vez em ritmo de desassossego e de relocalização, traduzem a matéria residual vulcânica em franca correspondência com a matéria da figuração íntima percebida e a ser nomeada em sua espacialidade abissal. Assim, pois, imagem que difrata e irradia o sentimento do tédio, como representação exemplar da melancolia de Fernando Pessoa, a dança faz-se mediação que interroga, que verifica os limiares a transgredir e que, ao fazê-lo, encaminha a Poesia ao Sublime:

Urge a I-MERSÃO de LAHARS com os sentidos dos cavalos-surfistas-mistérios que encantam o mundo, que movem o mundo, reconstruindo novos mundos, novas realidades. As ondas, as flutuações, os galopes sonâmbulos recombinam a matéria das imersões, as luminescências do abismo, os territórios obscuros-transgressivos entre o consciente e o inconsciente como a louca circularidade da escrita na imperscrutável espontaneidade. As escrituras-pyroclastic constituir-se-ão como uma composição interrogativa do silêncio. O silêncio na existência incontaminada onde os cavalos-poetas surfistas regressam continuamente à estonteante transmutação ausencia-presênça ou à dramaticidade-visageidade vibratória-tectónica do desaparecimento. Será esta a catástrofe-monádica das escrituras-pyroclastic? Será esta a dança sonâmbula que cria corpos selváticos no enigma das escrituras, ou serão as escrituras as danças interiores que se deflagram na cenarização insondável do próprio corpo? Uma dança cega constituída por energias sedutoras e por artesanias do estranhamento? Será este espelho uma transposição dançante-suprema que transforma a nossa dor num eco de imprevisíveis direcções, um eco de teatralidades a emergir na experiência-dos-limites da percepção-memória-imaginação-linguagem-pensamento-mundo (SERGUILHA, 2011, p. 103).

Considera-se o interrogar e o duvidar como traduções exemplares da expressão intermitente (a intermitência vista aqui pelo ângulo de produtiva ressimbolização do lugar, da Poesia e da subjetividade). Como se, ao processar tais ressimbolizações, ao Poeta fosse concedida a plenitude poética que filtra, dando a ver, entre o real e o arqueológico, o território das “paisagens extraviadas”, dar a vê-las não    pela gratuidade do gesto , mas para mergulhar em zonas até então inexploradas, quando, pois, este exercício do escrever faz-se matriz de fecundação e de irradiação da emoção artística, de rara beleza, hoje, na dicção contemporânea. Dar voz ao primitivo concedendo-lhe vivenciar sua experiência primeira da fertilidade inesgotável além, muito além do desassossego e da dança :   Koa’E, mágica palavra com que a voz lírica portuguesa de Luis Serguilha brinda-nos nesta coletânea poética singular que  acorda e faz despertar na Poesia de hoje certo efeito de re-encantamento:

Garatujar GAIA nos confins das pedrarias rudimentares/

incompreensíveis

     como uma disposição duradoura a alçar as

derivações lentas das raízes: [...] (SERGUILHA, 2011, p. 448).

BIBLIOGRAFIA

AGAMBEN, Giorgio. Obra. Trad. de Luísa Feijó. Lisboa: Cotovia, 2005.

BARTHES, Roland. Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Essais Critiques IV. Paris : Seuil, 1984.

BATAILLE, Georges. L’expérience intérieure. Paris : Gallimard, 1954.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Le danseur des solitudes. Paris: Les Éditions de Minuit, 2006.

PESSOA, Fernando; SOARES, Bernardo. Livro do Desassossego. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.

SERGUILHA, Luis. Koa’E. Belo Horizonte: Anome Livros, 2011.

Celistre – Joan Navarro

•Fevereiro 8, 2011 • Deixe um Comentário

 D’après, Larosa’e — Boca de Sândalo, Embarcações, A singladura do Capinador i Hangares do vendaval de Luís Serguilha.

 La boca dels hangars plens de fruits. La paraula fulminada pel magma cristal·lí. No hi ha salvació en aquest flux sense fissures. Pous. Fonts. Coves submarines. Maubere vol. Embarcat dins els licors dels capells invisibles de la nit. Les dunes del silenci dins les pupil·les. Maubere. Maubere. Maubere. Timor Larosa’e sota els vents de les palmeres matinals. Teixit de vent el vent. Boca d’hangar i de sàndal. La forest podrida al si de les tempestes. El iode de les llànties. L’or de les llànties. Els llamps de les llànties encapsulades. Els prats dels plomatges dels ocells fascinats. Els solcs on busquen menjar les llànties socarrades. La seda dels insectes de la nit. De les nits de sàndal vora el riu de les constel·lacions insomnes. Maubere. L’espill i els ramatges. Les arrels vertiginoses. Les argiles marítimes. El dolor de les banderes púrpura. El tacte polvoritzat sobre les ones de la gramàtica. Tigre botànic de la llum de les vigílies. L’aromàtica inèrcia dels naufragis. La flaire de les garotes vora les roques. El nucli pètal. L’incendi de les cúpules i de les veles. Subterrània geologia dels bambús. Maubere. La fascinació pel buit dels secrets. Lli llaurat. Pòrtic dels hemisferis. Parany de la medul·la. Larosa’e: Aquari calcinat. L’estiu dels turons. Salnitre dels arbres i dels volcans marins. Mireu les ones solars, l’arena de l’extermini, mireu el dolor de l’aigua dins l’arquitectura de Maubere, Maubere, Maubere. Les cendres dins l’ambre de les espores. La llum de les selves diluvianes. L’urubú dins la penombra de fòsfor. Els cereals de l’encens. Jardí escarpat: Ortiga. Maubere: Pantà. Xacal entre els espígols. Rai incendiat sota el cercle de plata. Maubere: Himne: Metàfora: Fractura de l’arpó: Arc de larva. Manglar. Manglar. Maubere: Manglar. Vidres amfibis i inorgànics. La cabana. Rosella. Els ecos de les galàxies del poema. Illa. Baia. Els arxipèlags de les metròpolis. Pólvora silvestre. L’ossada de Maubere: Tremolor de la fortuna. Ananàs: Maubere. Nenúfar: Maubere. Les pluges colonials. El plom colonial. Acàcies de l’aurora boreal. L’arquer dels ventalls dels penya-segats. Oh, els deliris atlàntics! La corol·la de seda de les hortènsies d’ultramar. El blat del càntir. L’arrossar de l’esperit. Les llengües volcàniques. El silenci, Timor, el silenci dels lleopards. Els primers noms: Sàndal: Baladre: Larosa’e.

Els diamants del ventall i de les veles. Les embarcacions. Les cartografies de l’ocell cosmonauta. L’alquímia dels icebergs: Claredat dels líquids minerals. Els astres, els astres terrestres. Estuaris oxidats: Una arada de febre. Salamandra damunt els paviments de vidre: L’ombra brillant de les passes. Taronges nocturnes. Les planícies inaudites. Les molses inaudites. Els pètals asèptics dels insectes. Senyals. Metàfores vegetals. Senyals. Joncs vermells: Senyals. Filosofia de les rodones esferes. Confidència dels meteors: Carbó sota les benes. Un lleopard recorre tots els cicles de la llum, els ciclons i els càntirs. Els càntics dels àtoms. El murmuri de les naus deambulant vora la costa. Els tròpics eixuts. Les tovalles cal·ligràfiques. Les hèlixs de les profunditats. Escolteu el respir de les dàlies, el vent submarí, l’agitació de la resina paralitzada. Un calze de pol·len: Polpa d’ametlla solar. La devastació oceànica. Els líquens del cor. El vellut lunar. Les síl·labes cilíndriques quan dius: Triomf siderúrgic de la nit. El foc de les pistes forestals. Els paranys elèctrics de les magnòlies. Els ànecs migratoris sota les voltes i damunt les embarcacions. Peixos deshabitats entre les vegetacions. Canelobres als pics de les serralades. I què?! Han fotografiat les mates de peixos solars: Els fruits de la lacònica pluja: El perfum nòmada: Els vocables fluvials: El porxo de les metamorfosis oceàniques. Els cossos nàutics. Les arestes resinoses de les paraules. Calendari de les circumferències. L’astre arbori dins l’espill de la retina. Embarcacions de frontera. El tresor que hiberna entre les molses. Les cèl·lules atordides. Les mans tancades a l’aigua de les aigües. La càpsula solar flota entre els bisons de la cova. La ferida celest. La fèrtil ferida: Ham d’espora: Consol inhabitable: Argila de cometa: Flama de naufragi: Les embarcacions es perden entre les dunes.

Orquídia de tempesta, acceleres el cor dels engranatges. Els heliotrops cerquen la corba llampant, la vegetació del silenci, la verema dels fruits aquàtics al si de les cisternes: Argonauta mineral. On les ales de iode? On els insectes hipnotitzats? Al cim del promontori l’articulació del llamp somnàmbul, la fecunditat de l’àtom: La fugacitat de l’ocell vora l’istme dels sargassos. Els satèl·lits desembarquen en platges lunars. Sota els pòrtics d’ivori fugia la teua ombra, el cavall i la bandera, la llum dels quatre punts cardinals: Els estels perdien els seus pètals, els ravals de sílex, les volcàniques pupil·les. Sota les escames, el bàlsam litoral, els al·luvions de les criptes humides: Àmfores, àncores i caules de bambús. Les illes de vent. L’or i el dolor. Feldespat i mica. Aranya dins l’ull del calidoscopi. Cronòmetre del brunzir de l’eixam. Vine i contempla els acròbates entre les agulles de les torres. Un fil esfèric el seu camí. Escolta el cant dels birbardors: La seua singladura per les constel·lacions geomètriques, pel laberint de les sirenes: Atmosfera de clorofil·la: El vol suspès d’una xarxa. Les arrels i els ocells. Les oxidades metròpolis de l’aire. La veu de l’eixermador, l’alè de l’arrabassada terra, les garrigues de cendra. Els conjurs de l’eixarmador: Guareix la roja terra: La paraula  apòzema: Les cintes beneïdes sobre les gleves: Els murmuris i la suor. L’aigua purificada: Les aspes suspeses com una xarxa en l’aire: Creus hidràuliques: Els filaments de l’oració: Les espigues que encara no són espigues ni pensament d’espiga:  La cambra vegetal que dormita: Hemisferi de la llum: Espasme dels mots als confins del llenguatge. Insecte, vendaval, que la terra esplete, restes de sang damunt la pell del tamborí, que la terra esplete, gladiol, els dits pelats, que la terra esplete, el respir de la terra, la suor vegetal de la terra, que la terra esplete, ortografia de la terra, la petjada del jaguar, que la terra esplete, incisió, solc, corba de la vida. Que la terra esplete…

Dins la flor el firmament, l’ull de bou cal·ligràfic, els fruits fugaços de les llimeres. Els grafits dels rems: Les arrapades dels coralls que floten. Els signes dels ametllers. Agricultura astral. Les collites autumnals. La dacsa dels mercaders. Els alfabets. Els alfabets. Els alfabets. Crosta de granit. Secretar la llum de la magnòlia. Esbotzar el cèrcol. Els carruatges travessen les planures sota els fanals. L’aïllament hiperbori. Els raïms peninsulars. Els marbres dels mausoleus de les arpes. Les cordes i les notes desvariejades. El blau òptic de la sal. Les barcasses. Els búfals dels arrossars. El cascall de la llàntia abans d’esclatar. L’aram de les cicatrius. El cobalt tubular. ¿Em jures que la pluja caurà en espiral damunt els mapes, damunt els gladiols de l’humus, sobre els lladrucs afònics dels cronòmetres i dels àbacs? M’ho jures? Els filferros i les boles movibles: Un, dos, tres: Les magranes plenes d’abelles que reverberen el foc humit. La combustió del blat hivernal. Has tornat estalvi del diluvi en un rai de vespes: Licor boreal. Brúixola nocturna i noctàmbula. Rotació de l’òliba dins l’eco de la nit. Les àncores, les àncores! Les glaceres volades amb dinamita. El cromatisme del banús. Els velers policroms. Una colònia de llunes esclata en les temples de l’univers. Acròbata de les lianes: Sil·labari de les meduses: Rizoma d’espurnes: Escapa dels maquinaris, de l’ossada de les fràgils atmosferes dels pèndols! Fuig de l’ull del lleopard! La gúbia de la veu entre els rostolls: Un àlbum de nitrats de plata. Les hèlixs esbocinades. Espiga entre la ferralla, els feltres no poden lliurar-me de la fredor dels gels. Torne sense moure’m a la larva primera.

Joan Navarro, València, gener – maig de 2008

Cuchillo de aire

D’après, Larosa’e — Boca de Sândalo, Embarcações, A singladura do Capinador y Hangares do vendaval de Luís Serguilha.

La boca de los hangares llenos de frutos. La palabra fulminada por el magma cristalino. No hay salvación en este flujo sin fisuras. Pozos. Fuentes. Cuevas submarinas. Maubere quiere. Embarcado en los licores de los capullos invisibles de la noche. Las dunas del silencio dentro de las pupilas. Maubere. Maubere. Maubere. Timor Larosa’e bajo los vientos de las palmeras matinales. Tejido de viento el viento. Boca de hangar y de sándalo. La foresta podrida en el seno de las tormentas. El yodo de las lámparas. El oro de las lámparas. Los relámpagos de las lámparas encapsuladas. Los prados de los plumajes fascinados. Los surcos donde buscan comida las lámparas socarradas. La seda de los insectos de la noche. De las noches de sándalo junto al río de las constelaciones insomnes. Maubere. El espejo y los ramajes. Las raíces vertiginosas. Las arcillas marítimas. El dolor de las banderas púrpura. El tacto polvorizado sobre las olas de la gramática.  Tigre botánico de la luz de las vigilias. La aromática inercia de los naufragios. El olor de los erizos junto a las rocas. El núcleo pétalo. El incendio de las cúpulas y de las velas. Subterránea geología de los bambúes. Maubere. La fascinación por el vacío de los secretos. Lino dorado. Pórtico de los hemisferios. Armadijo de la médula. Larosa’e: Acuario calcinado. El estío de los collados. Salitre de los árboles y de los volcanes marinos. Mirad las olas solares, la arena del exterminio, mirad el dolor del agua en la arquitectura de Maubere, Maubere, Maubere. Las cenizas en el ámbar de las esporas. La luz de las selvas diluvianas. El urubú en la penumbra de fósforo. Los cereales del incienso. Jardín escarpado: Ortiga. Maubere: Pantano. Chacal entre las lavandas. Almadía incendiada bajo el círculo de plata. Maubere: Himno: Metáfora: Fractura del arpón: Arco de larva. Manglar. Manglar. Maubere: Manglar. Vidrios anfibios e inorgánicos. La cabaña. Amapola. Los ecos de les galaxias del poema. Isla. Baya. Los archipiélagos de las metrópolis. Pólvora silvestre. La osamenta de Maubere: Temblor de la fortuna. Piñas: Maubere. Nenúfar: Maubere. Las lluvias coloniales. El plomo colonial. Acacias de la aurora boreal. El arquero de los abanicos de los acantilados. ¡Oh, los delirios atlánticos! La corola de seda de las hortensias de ultramar. El trigo del cántaro. El arrozal del espíritu. Las lenguas volcánicas. El silencio, Timor, el silencio de los leopardos. Los primeros nombres: Sándalo: Adelfa: Larosa’e.

Los diamantes del abanico y de las velas. Las embarcaciones. Les cartografías del pájaro cosmonauta. La alquimia de los iceberg: Claridad de los líquidos minerales. Los astros, los astros terrestres. Estuarios oxidados: Un arado de fiebre. Salamandra sobre los pavimentos de vidrio: La sombra brillante de los pasos. Naranjas nocturnas. Las planicies inauditas. Los musgos inauditos. Los pétalos asépticos de los insectos. Señales. Metáforas vegetales. Señales. Juncos rojos: Señales. Filosofía de las redondas esferas. Confidencia de los meteoros: Carbón bajo las vendas. Un leopardo recorre todos los ciclos de la luz, los ciclones y los cántaros. Los cánticos de los átomos. El murmullo de las naves deambulando junto a la costa. Los trópicos secos. Los manteles caligráficos. Las hélices de las profundidades. Escuchad la respiro de las dalias, el viento submarino, la agitación de la resina paralizada. Un cáliz de polen: Pulpa de almendra solar. La devastación oceánica. Los líquenes del corazón. El terciopelo lunar. Les sílabas cilíndricas cuando dices: Triunfo siderúrgico de la noche. El fuego de las pistas forestales. Las trampas eléctricas de las magnolias. Los ánades migratorios bajo las bóvedas y sobre las embarcaciones. Peces deshabitados entre las vegetaciones. Candelabros en los picos de las cordilleras. ¿Y qué?! Han fotografiado los cardúmenes de peces solares: Los frutos de la lacónica lluvia: El perfume nómada: Los vocablos fluviales: El porche de las metamorfosis oceánicas. Los cuerpos náuticos. Las aristas  resinosas de las palabras. Calendario de las circunferencias. El astro arbóreo en el espejo de la retina. Embarcaciones de frontera. El tesoro que hiberna entre los musgos. Les células aturdidas. Las manos cerrada al agua de las aguas. La cápsula solar flota entre los bisontes de la cueva. La herida celeste. La fértil herida: Anzuelo de espora: Consuelo inhabitable: Arcilla de cometa: Llama de naufragio: Las embarcaciones se pierden entre las dunas.

Orquídea de tormenta, aceleras el corazón de los engranajes. Los heliotropos buscan la curva flamante, la vegetación del silencio, la vendimia de los frutos acuáticos en el seno de las cisternas: Argonauta mineral. ¿Dónde las alas de yodo? ¿Dónde los insectos hipnotizados? En la cima del promontorio la articulación del relámpago sonámbulo, la fecundidad del átomo: La fugacidad del pájaro junto al istmo de los sargazos. Los satélites desembarcan en playas lunares. Bajo los pórticos de marfil huía tu sombra, el caballo y la bandera, la luz de los cuatro puntos cardinales: Las estrellas perdían sus pétalos, los arrabales de sílex, las volcánicas pupilas. Bajo las escamas, el bálsamo   litoral, los aluviones de las criptas húmedas: Ánforas, áncoras y tallos de bambúes. Las islas de viento. El oro y el dolor. Feldespato y mica. Araña en el ojo del calidoscopio. Cronómetro del zumbar del enjambre. Ven y  contempla a los acróbatas entre las agujas de las torres. Un hilo esférico su camino. Escucha el canto de los escardadores:  Su singladura por las constelaciones geométricas, por el laberinto de las sirenas: Atmósfera de clorofila: El vuelo suspendido de una red. Las raíces y los pájaros. Las oxidadas metrópolis del aire. La voz del desbrozador, el aliento de la artigada tierra, las sardas de ceniza. Los conjuros del ensalmador: Cura la roja tierra: La palabra pócima:  Las cintas bendecidas sobre las glebas: Los murmullos y el sudor. El agua purificada: Las aspas suspendidas como una red en el aire: Cruces hidráulicas: Los filamentos de la oración: Las espigas que aún no son espigas ni pensamiento de espiga: La cámara vegetal que dormita: Hemisferio de la luz: Espasmo de las palabras en los confines del lenguaje. Insecto, vendaval, que la tierra dé fruto abundante, restos de sangre sobre la piel del  tamborín, que la tierra dé fruto abundante, gladiolo, los dedos pelados, que la tierra dé fruto abundante, el respiro de la tierra, el sudor vegetal de la tierra, que la tierra dé fruto abundante, ortografía de la tierra, la pisada del jaguar, que la tierra dé fruto abundante, incisión, surco, curva de la vida. Que la tierra dé fruto abundante…

En la flor el firmamento, el ojo de buey caligráfico, los frutos fugaces de los limoneros. Los grafitos de los remos: Los arañazos de los corales que flotan. Los signos de los almendros. Agricultura astral. Las cosechas otoñales. El maíz de los mercaderes. Los alfabetos. Los alfabetos. Los alfabetos. Costra de granito. Secretar la luz de la magnolia. Destripar el cerco. Los carruajes atraviesan las llanuras bajo los  sota los fanales. El asilamiento hiperbóreo. Las uvas peninsulares. Los mármoles de los mausoleos de las arpas. Las cuerdas y las notas desvariadas. El azul óptico de la sal. Las barcazas. Los búfalos de los arrozales. La adormidera de la lámpara antes de estallar. El cobre de las cicatrices. El cobalto tubular. ¿Me juras que la lluvia caerá en espiral sobre los mapas,  sobre los gladiolos del humus, sobre los ladridos afónicos de los cronómetros y de los ábacos? ¿Me lo juras? Los alambres y las bolas movibles: Un, dos, tres: Las granadas llenas de abejas que reverberan el fuego húmedo. La combustión del trigo invernal. Has regresado salvo del diluvio en una almadía de avispas: Licor boreal. Brújula nocturna y noctívaga. Rotación de la lechuza en el eco de la noche. ¡Las áncoras, las áncoras! Los glaciares dinamitados. El cromatismo del ébano. Los veleros policromos. Una colonia de lunas estalla en las sienes del universo. Acróbata de las lianas: Silabario de las medusas: Rizoma de centellas: ¡Escapa de las maquinarias, de la osamenta de las frágiles atmósferas de los péndulos! ¡Huye del ojo del leopardo¡ La gubia de la voz entre los rastrojos: Un álbum de nitratos de plata. Las hélices partidas. Espiga entre la chatarra, los fieltros no pueden liberarme del frío de los hielos. Retorno sin moverme a la larva primera.

Joan Navarro, Valencia, enero – mayo de 2008

A POESIA HERMÉTICA DE LUÍS SERGUILHA – Leitura Preliminar – Márcio Almeida

•Fevereiro 8, 2011 • Deixe um Comentário

A POESIA HERMÉTICA DE LUÍS SERGUILHA

Leitura Preliminar

Meu caro Luís,

            seus textos levaram-me a um revival da poesia hermética, ao ocultismo, ao surrealismo, ao poder paratático/hipotático da linguagem constituir estranhamento, mistério, embevecimento, emoções raras de uma concepção primeva, porquanto eles fundam uma mitopoética que exige acuidade e conhecimento, a fim de não limitá-los a um reducionismo sempre empobrecedor.

            Em nível lusitano, seus textos remetem à tradição de uma Ordem do Templo, da qual Pessoa se dizia afiliado – “sentir tudo de todas as maneiras”; à “circunscrição auto-reflexiva comum em poetas portugueses, revelados nos anos 50 através da intensificação verbal (Fernando Guimarães), quando se leva às últimas conseqüências um horizon fabuleux como tendência hermética na poesia, que privilegia o fechamento do texto, entregue à iniciativa das palavras e à qual se opõe uma tendência hermenêutica na qual a linguagem é encarada como meio de interpretação de si e do mundo (Collot)”, conforme analisa, e bem, Ana Paula Coutinho Mendes.

            Os textos revitalizam também a anarquia no surrealismo português, mormente sob o registro emblemático em A única real tradição viva – antologia da poesia surrealista portuguesa, organizada/prefaciada por Perfecto E. Cuadrado, reunindo, entre outros, Mário Cesariny, Alexandre O´Neill, Mário Henrique Leiria, Pedro Oom, Antonio Maria Lisboa, movimento que, segundo Cláudio Willer, talvez o melhor especialista no gênero de Breton no Brasil, além de ter causado, em Portugal, “algum desconforto e consternação”, mostra-se, ainda hoje, “o mais importante e influente em poesia, afora aquele do âmbito francófono.”

            É por isso, reconhece o poeta-crítico brasileiro na edição 9 da revista eletrônica Agulha, que “boa parte do melhor da literatura portuguesa de hoje, se caracteriza pela riqueza imagética, por qualquer coisa de transbordante e transgressivo, em contraste com a produção brasileira contemporânea, cerebral, regrada, em suma, bem-comportada em autores de maior prestígio.”

            E acrescenta: “Natália Correia em O surrealismo na poesia portuguesa vê a irrupção vigorosa desse grupo com algo inerente à tradição literária de Portugal, de origens medievais. O culto ao escárnio e maldizer, ao exagero, à metáfora extravagante, ao grotesco, permite um trabalho de arqueologia…”

            Seus textos aludem a uma mitopoética, de simbologia hermética, cuja linguagem contém implícitos não apenas impressões anti-cartesianas, mas revelações iniciáticas que suscitam a existência complexa da transmutação de palavras em signos potencializados de núcleos axialmáticos alicerçados por analogias, paradoxos, relações bizarras, cifradas, constituindo uma tensão dialética, uma ”multivalência de conotações” (Júlia Kristeva).

            Tem-se assim, como resultado, uma linguagem a exigir decodificação para promover sua recepção pelo leitor, uma vez ser intenso o código do estranhamento.

            Há em seus textos o que Raúl Antelo chama de “actitud demolidora de la solidez discursiva”, donde o surrealismo e a poesia hermética serem, por igual, “una continua perforación de la intimidad, una serie de aproximaciones hacia lo más adentrado y movedizo de un yo despojado y essencializado, un rosário candente de interrogaciones angustiadas ante las sombras errantes que se desatan allá, en los abismos estremecidos y creadores de cada ensueño.”

            São esses textos ”agulhas de fogo” a dessacralizar o senso comum na fundação de um nonsense que esgarça significações inóspitas, surreais, ocultistas, mágicas, míticas da linguagem ou linguagens críticas de si mesmas que se arrolam como lavras despercebidas a susterem as sentenças primaveris dos labirintos – as linhas iluminadas das alavancas – as origens das premeditações [que] aperfeiçoam as metamorfoses, como se lê no texto 1.

            Há uma intenção precípua, ainda que quase sempre inconsciente e/ou afeita ao automatismo, de des/dizer essas linguagens primordiais, teriomórficas e isomórficas como se a humanidade derramasse os reflexos das letras surdas, com a ereção da platina do diálogo inadiável (t.2).

            Ao cifrar o código ao extremo, a poesia poesia (A. de Campos). Donde as linguagens embarcarem na celebridade dos signos, nos porões de letras aclimatadas (t.4). As “agulhas de fogo” iniciativas têm em seus textos forte incidência, são um incêndio discursivo: ora uma é o fogo volátil [que] pertence ao teatro da longevidade, mas sempre a inteligência do fogo (t.4), inspirador das gôndolas; os fogos organizadores do verbo para uma difusão dos candeeiros; ou aqueles que originados da mitopoética apontam para confluências das fogueiras [posto que] auxílios acantonados nas regenerações dos guardadores de vertigens (t.5).

            Ainda que surrealistas, às vezes gnósticos, os textos mergulham em tensões lingüísticas à procura de uma forma de dizer poesia, em que as palavras “funcionam” como fendas/fulcros por onde apalpar significações tangíveis. As palavras, nesse contexto hermético, são parteiras soberanas do mistério, que fazem  cópias lingüísticas dos saracoteios solares, que por seu turno localizam os desígnios das transgressões (t.7).

            No jogo palavra-puxa-palavra tem-se assim como uma bandeira imaginária da incomensurável linguagem, mas, também, degoladas definições onde as banalidades das bandejas verbais aspiram rudemente…(t.8). O nonsense pensa em si para conotar vagabundos versos nas trajetórias interiores das provocações obsessivas (t.9). O anticlímax do estranhamento en seja, por conseguinte, carroças de linguagem [que] insinuam os ofícios alienígenas e gramáticas dos casulos nas vaginas furiosas das metáforas.

            Sua alquimia poética faz de cada palavra extemporânea um espelho surpreendente (t.13). Nesse sentido, ou nessa falta de sentido, é possível comparar os seus textos com a produção de Herberto Helder. Para Nelson de Oliveira, “a poética de Helder tem sido sempre a metamorfose unificadora e a da transmutação alquímica; é a simbiose absoluta entre todos os seres;” Essa transfiguração alquímica reúne elementos de todos os “reinos”, sagrados, profanos, míticos, mágicos, cósmicos, indo do primordial à mutação onto-genética. Ambos, Helder e Serguilha, constroem “enunciados sintática e semanticamente subversivos, articulados de maneira proibida pelo código” numa “estratégia de desautomatização”, geradora de imediata incompreensão.

            Serguilha retoma parte do repertório de Helder: árvore, vulva, o sentido de ocultação, uma “utopia órfica” dependente de tautologia, “da repetição áspera de determinados motivos”, de uma “radical subversão da linguagem utilitária”, do ”abandono das formas fixas”, a intenção de fazer “com que a atenção do leitor caia diretamente no sentido do enunciado, ou, melhor dizendo, na falta de sentido do enunciado” (N. de Oliveira).

            Ambos, Helder e Serguilha, comparativamente, banem dos seus textos as associações lógicas e a coerência aristotélico-cartesiana, analisa N. de Oliveira no autor de “O corpo o luxo a obra”, cultivando “os nexos descabidos e as incongruências sintáticas e semânticas.” Contudo, é importante para desvendar os textos de ambos os autores lusitanos, Antonio Cândido, que atenta para um fato: ainda que haja transgressão, subversão, até mesmo aporia lingüística, “os códigos continuam a existir.”

            Assinalada por Nelson de Oliveira para situar a poética de Herberto Helder, a observação de Antonio Cândido é pertinente, também, no caso de Serguilha: “a combinação se torna poética no nível lingüístico devido à seleção: no caso, ela instaura o impossível lógico, inesperado e incongruente, mas transfigurador.”

            Donde não haver, pelo menos a priori, explicação plausível para construções surrealistas, que se nos surpreendem pela leitura imagética de supostas surpresas sígnicas. É, por exemplo, o caso de florescências extasiadas de límpidas catedrais – retorno dos candelabros na exaltação das gargantas dos guindastes (t.2); ou como as cores da minerografia tateadas magnanimamente pela fugacidade das crinas do embarcadouro (t.4); ou os palpites das miniaturas dos astros formando nas cavilhas infinitas do sangue a comunicação lenhosa e rosa (t.7); ou a crucificação das papoilas sobre a aceitação das clavículas esquecidas das estrelas (t.9); ou ainda um exército de detergentes-galgos triturados pelos dédalos viscerais dos cobradores de abafos fotográficos explicam a ancestralidade dos exílios dos chocalheiros como os telefones das cascavéis a calafetarem as detonações gangrenadas das avelãs.

Palavra e Sombra – Leda Tenório da Motta

•Fevereiro 8, 2011 • Deixe um Comentário

            Aparentemente, temos aqui o contrário do poeta que não encontra as suas palavras. Já que quem mais fala aqui é a linguagem. Estaríamos diante de uma poesia que arrisca tudo nas palavras. De uma criação do mundo pela palavra. De uma poesia feita de palavras.

            De fato, palavras não faltam a Luis Serguilha. Parecem ser bem maiores que a própria vida _ se é que há vida antes das palavras _ , de tal modo que a encobrem. Buscam saltar para fora da página, assumindo, muitas vezes, a letra garrafal. Fazem estranhos elos que explodem a sintaxe. São exasperadoras porque nada nunca termina de ser dito. Deixam o sentido eternamente adiado. Oferecem o espetáculo do nonsense, do segredo. Tecnicamente, é o Barroco, neste caso, desesperado. Para o riso amarelo de Francis Ponge, diríamos que não se vai aqui muito além do ímpeto, da tentativa, do drama de dizer. O que é uma homenagem prestada ao partido da expressão.

            O sentido não está oculto, está ausente.O que faz o seguinte sentido: estamos numa turbulência verbal. Se o hangar é o abrigo no interior do qual se enclausuram coisas, neste caso, nada fecha o buraco metafísico.As palavras são vento, como diria a sabedoria antiga.

            Tantas delas assim ao léu parecem criticar a vanidade de nos esforçarmos até as idéias e os sentimentos, o homem e seus problemas, inclusive políticos (lembranças de Saramago!). O poeta de Hangares do Vendaval tem razão de esquivá-los. Em sã consciência, nesta altura dos acontecimentos, quem poria o quê _ que questões, de que ordem, que questões de ordem _como se diz nas assembléias _ no centro de uma poesia? E quem haveria de lhe cobrar de quê exatamente está falando, e o que foi mesmo que aconteceu?!

            Não podemos saber o que aconteceu. Para tais perguntas enquadradoras não sequer um começo de resposta em Luis Serguilha. O fato, por si só, sugere que se trata de boa poesia. Por mais difícil que seja reconhecê-la, principalmente no calor da hora de sua publicação. Já que, apesar do tormento dessa dispensação verbal sem centro, sem limites, o diferencial aqui é o jorro, justamente, a contundência, a energia. Apreciada _ aliás  _ desde a experiência brasileira da poesia que sai do traço epigramático, do minimalismo, do jeu de mot concretista, diluindo-o até o cadáver, tanta loquacidade só pode ser vista como salutar.

            Mas numa segunda análise, são talvez as coisas e não as palavras que importam. Tratar-se ia da realidade.Do universo simplesmente físico. De uma experiência simplesmente sensível. De uma De Natura Rerum, mas desenfreada.

             Agora, estaríamos nos elementos desencadeados, na criação divina (por assim dizer) e não na criação de algum poeta que se tomasse por Deus.A ponto de então nos perguntarmos: seria Hangares do Vendaval um poema cosmogônico, desses que já não se fazem mais? Uma eureka? Uma ciência? Uma máquina do mundo camoniano-drummoniano-haroldiana mais uma vez repensada?

             E já que Serguilha confessa guiar-se por alguns artistas da palavra que encamparam o parâmetro das artes plásticas _ e não o da música _ seria ele, antes que um falador, ou um lírico verborrágico, um pintor do universo, que quer descrevê-lo, apresentá-lo, captá-lo sensualmente, para tanto entrando na interioridade dos objetos de todos os reinos, vegetal, animal, mineral e  industrial? Seria ele um artista plástico que não nega que é conterrâneo e vizinho de porta do fantasma de Camilo Castelo Branco, que se suicidou exemplarmente, ao saber-se fadado a ficar cego, quer dizer, a não mais ver o mundo extra-linguagem, ainda que fosse para melhor interiorizá-lo? Jogaria ele no time dos que pensam que a poesia, como diria Miloz, são algumas linhas e por trás uma imensa paisagem?

            A terceira hipótese é: nem um nem outro. Nem palavras, nem coisas! De fato, como tudo aqui é observado de muito _ mas muito _ perto, chegamos a descritivismos tais da natureza que, no fim das contas, e por excesso de zelo, tudo vira metáfora. O poeta quer ir às partes mais entranhadas, mais escondidas, mais inéditas do que encontra fora de si. Mas para narrá-las tem que buscar apoio em si mesmo. É próprio de qualquer arte que nada possa dar a ver senão dentro dos seus próprios termos! Assim, a variedade dos fatos externos acaba solicitando virtuosismos verbais que redundam numa natureza desnaturada, imaginária, alucinatória, surreal:os “pássaros esplendorosos dos arquivos”, as “ortografias das corujas”, a “cerveja autografada”, o “burburinho da pedra- pomes”, o “mar das sutilezas vinhateiras”, a “ervagem bicéfala”…

            Há aqui o efeito vertiginoso de um choque, de uma telescopagem da enunciação e do enunciado.Assistimos a uma espécie de mise-en-abîme, de que não podemos dizer se rende reflexões sobre a linguagem vista através dos objetos ou o contrário. O fato é que, olhando bem, as coisas reduzem-se às palavras… e vice-versa. Tendo começado na expressão e passado da expressão à experiência e à existência, terminamos num transe enlouquecido.

            Apesar da dificuldade extrema de se tirar algo desse perfeito nonsense em que Serguilha se movimenta, aparentemente em busca de algum hangar em que se enclausure, para salvar-se _ para salvar-nos _ da loucura, talvez se possa arriscar dizer alguma coisa, totalmente no escuro, e interrogativamente, sobre o significado deste seu novo livro.

            Por que será que, ao lê-lo, não consigo parar de pensar em A Tentação de Santo Antão de Flaubert? Será que é porque Flaubert, que escrevia romances tão torturadamente como quem faz poesia, nunca achando suas palavras, toma a santa personagem no momento mesmo em que as palavras da Bíblia a levam ao delírio?

            Ou será que toda esta catástrofe que não sabemos bem qual é, o que não a impede de ir tomando proporções, ao longo dos 16 passos numerados da via crucis de Serguilha, não se deixaria ler à luz do poema Aubade de Philip Larkin sobre a destruição do mundo: “the sure extinction that we travel to”? Seria este mais um ensaio geral do fim?

Leda Tenório da Motta é crítica literária, tradutora e

professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e

 Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Publicou, entre outros,

Francis Ponge- O Objeto em jogo (Imago, 1997)

e Proust- A Violência sutil do Riso ( Perspectiva, 2007).

Fantasia quase sonata: Serguilha e a contextura intratranscendental – Marcelo Moraes Caetano

•Janeiro 25, 2011 • 2 Comentários

1) Prelúdio e fuga sobre variações cromáticas na melodia enarmônica de Serguilha

Foi inevitável, para mim (embora talvez um tanto ou quanto previsível), assim que tomei os primeiros contatos com a obra de Serguilha, a que só com grave e prejudicial licença poética às avessas se poderia chamar “texto”, compará-la à aflição-repousante da música. Sua obra, a que em nenhum momento cometerei o descalabro de nomear por “texto”, repito-o, é, antes de ser outras e outras manifestações de arte-ciência-poder, teoria-ontologia-TEOLOGIA, de que falarei mais tarde, é um vasto universo sonoro que podemos aspirar com os olhos fechados e não pelas narinas ou pelas íris rubicundas, mas pelos ouvidos que, em breve, começam a atingir o estado de êxtase próprio da música – o qual já não discerne dor de prazer, angústia de alívio, fome de saciedade, privação de gozo, abstrato de concreto, divino de humano, sagrado de herético, domínio de desassossego, louco de lúcido, Aristóteles de Diógenes, esses antípodas alexandrinos todos, em suma…

            A área da música exige um mergulho nas reentrâncias e refolhos do inconsciente. Euterpe é, de longe, a musa favorita de Dioniso-Baco, a que mais confortavelmente habita a medula espinhal de Nietzsche. É a que melhor reproduz a irreprodutibilidade de um sentimento-átomo em desajuste e confrontado a revelar sua Veritas: na verdade, comporta-se como ondas ou como partículas? A música é o inconsciente. Mas um inconsciente substantivo, não adjetivo, não agregado a valores outros que, pois, se “tornariam”, porventura, após paradigma ou constelação de valores, enfim, “inconscientes”. Não. Não.

Não. O inconsciente, na música, jamais está. O inconsciente, na música, é. Sempre. Tautológico dizê-lo, mas já o foi. Sinto. A música é o inconsciente metafreudiano em sua completude: 1) o id, ou o lixo que nos inicia, o caos-cosmo de Gilles Deleuze, a que retornaremos limpos, a rudis indigestaque moles de Ovídio (“matéria rude e informe”, com que se abre a sua Teogonia); 2) o ego, ou o esboço de pessoa somática que nos é; 3) o superego, ou a estrutura que julga as demais e lhes freia como as moiras do destino (Cloto, Átropos e Láquesis fiando sem parar, como as fiadeiras de “O navio fantasma”, de Wagner, que fiam até o naufrágio que perde a uns, mas acha a outros – o amor eterno e final de Senta e o Holandês errante, pois “contra o amor não há lei”, como diz São Paulo de Tarso, e nem mesmo os deuses podem impedir sua “contextura inescrita”, nos significantes de Serguilha); e 4) os Niederschriften, ou as “inscrições” do velho Sigmund Freud, “vestígios” de Michel Foucault, “rastros de rastros” (les traces de traces) de Jacques Derrida, poiein (ποιείν) no sentido semanalítico de minha mestra Julia Kristeva – laborar sobre a língua.

Mas que língua? De que língua arquimetalinguística estamos a falar? Que mistério é esse que, numa parábase, como o corifeu do teatro grego, obriga o coro a se separar da trama para tecer ironias e mostrar, com isso, os paradoxos dela. Será a língua mesma da parábase, a língua que Secchin nos lembra que tece ironia, ceticismo e o cinismo de Diógenes onde a unanimidade apenas aplaudia eufórica? Será que é a língua que, de tão concreta e subterrânea, eleva os domínios de Hermes ou Mercúrio do profundo Letes, o rio da morte (de onde provém o adjetivo “letal”), ao arco sempiterno de sua irmã Íris? Será que essa língua irônica, que se distancia de tudo o que é verossímil e coerente, que é mais enraizada no pântano do que na terra, é nosso Faetonte que, em sua esplendorosa quintessência, eleva o Carro de Apolo e tudo ilumina e esclarece, do mais alto dos altos?

Barthes dizia que só pode emergir a crítica através do contraste de duas consciências.  É um resumo do estruturalismo, em que a ordem é a do terceiro excluído, de que a obra de Serguilha é seguidora e desafiadora: aristotélica, pois, para o estagirita, um fenômeno não pode ser ao mesmo tempo verdadeiro (lógico) e falso (mítico). É um prenúncio do pós-estruturalismo, em que a ordem é a do terceiro incluído, podendo a “Fenomenologia do espírito” (de Hegel) ser, simultaneamente, verdadeira e falsa, de que a obra de Serguilha é seguidora e desafiadora: diogênica, pois, para o mestre de Sínope, a melhor coisa que Alexandre da Macedônia, montado sobre seu portentoso Bucéfalo e dono do maior império do mundo, poderia lhe dar era sair da frente do sol.

Diógenes é o cisco perene no arcabouço taumatúrgico de Aristóteles. Poder?

Sol.  

            A música, assim como a obra de Serguilha, não se deixa vislumbrar por frestas. A música é o inconsciente nu. Ou é total ou não é coisa nascida – nulla res nata (do latim: “nenhuma coisa nascida”, de onde, por metonímia, surgiu o vocábulo português “nada”, pronome indefinido…). É a ferida aberta nietzschiana que nos torna humanos, demasiado humanos. O crepúsculo dos nossos ídolos. A mais matemática das artes é a menos quantitativa de todas elas. A música é a serpente que engole a própria cauda, prefigurando o tempo grego de Kairos (Ќαιρος), não de Chronos (Χρονος), exatamente por fazer com que o paradoxo resolva a questão da coerência, já que o espaço ôntico e empírico dos significantes da música, despidos de semântica representante, levam ao êxtase supremo dos cinco (ou seis?) sentidos. Marx dizia que a História humana se resume à história dos cinco sentidos. Derrida dizia que o avanço do capitalismo levaria à vontade (ou à pulsão, na versão de Freud) de derrubada do capitalismo.  Bem, de fato foi o que aconteceu com o comunismo, pelo menos enquanto regime estatal, não necessariamente enquanto utopia. O anarco-sindicalismo de um Gramsci ou de um Negri concordariam em parte com a tese, mas desafiariam mas à luz do que Deleuze e Guattari escreveriam sobre o poder e o establishment que as artes já desafiaram de há muito. A matemática dos andaimes e arcabouços da música e de Serguilha, calcada numa emergência de significantes tão concrescíveis quanto pingos de titânio, leva à suprarrazão dessa mesma matemática, que se sublima num êxtase dionisíaco, bacanal, para condensar-se em seguida na chuva de ouro com que Zeus conquistou Dânae.

            Música e Serguilha, ainda no campo do Mito (μΰθος, “mentira”) o “irmão feio” do Logos (λώγος, “verdade”), filhos, ambos, do Tauma (Τάυμα, “conhecimento”, palavra sinônima – não idêntica – de Gnosis), são o nascimento de Dioniso (Dioniso: literalmente, em grego, o “duas vezes nascido”). Isso porque a obra de Serguilha e a música são como a princesa tebana Sêmele que (instigada pela ira de Hera, esposa legítima do deus dos deuses, Zeus) pediu a este que se lhe mostrasse por inteiro, de uma só vez, ou seja, em sua epifania. Ocorre que só um deus pode ver incólume a epifania de outro deus. E Sêmele não é deusa, é semideusa, tem algo de humano, demasiado humano. A quem não fosse um deus, em resumo, um verdadeiro deus só poderia se mostrar em alguma de suas hipóstases ou hierofanias. Por isso Zeus foi um cisne para Leda; um touro para Europa; uma águia para Ganimedes (um de seus amores homossexuais); uma chuva de ouro para Dânae; e assim por diante.

No entanto, atendendo ao pedido de sua amante Sêmele, que havia sido envenenada pela malícia astuta, viperina e ciumenta de Hera, Zeus, sabedor da tragédia que aquele pedido representaria, ainda assim se mostrou epifanicamente a ela, que estava grávida do porta-égide, trazendo no ventre o primeiro Dioniso (ou Baco, Brômio etc.).

Seu palácio ardeu em chamas imediatamente, fulminado pelos raios e trovões que emanavam da epifania de Zeus, de sua coroa, de seu cetro, de sua égide, de seu nadir, de seu zênite. Pobre Sêmele, tombou morta. Zeus, sem poder salvar-lhe a vida, retirou de seu ventre, entretanto, o filho, o primeiro Dioniso (este foi seu primeiro nascimento) e o costurou em sua própria coxa, vindo ele a nascer algum tempo depois como o segundo e definitivo Dioniso (seu segundo nascimento).

            A saga de Serguilha, da música e de Dioniso, todavia, não termina aqui. Porque é uma saga de inícios, prelúdios e fugas, que levam a novos inícios, prelúdios e novas fugas que se restauram incontinenti.

Premidos de inveja do lugar de predileção que Dioniso gozava ao lado de seu pai, o deus dos deuses, Zeus, Hera convenceu os Titãs, então já libertados, mas confinados a áreas bem restritas de atuação (eles foram, numa das tradições clássicas, a segunda geração dos deuses, precedidos por Urano e Geia, da primeira geração, e sucedidos pela vitória de Zeus e a divisão do cosmo com seus irmãos Hades e Posêidon), enfim, Hera convenceu os Titãs a devorarem Dioniso. Eles o fizeram. Quando Zeus soube, furioso, pegou o vinho de Dioniso e fez todos os Titãs o beberem. O resultado foi que eles vomitaram Dioniso, que se refez, ressurgiu, mostrando-se, realmente, imortal e invencível, e, de sobra, ainda nasceu, com ele, a espécie humana, todos nós, feitos da carne e do sangue (vinho) de Dioniso, e, mais tarde, ilustrados com o fogo que Prometeu roubou de Hebe e de sua lareira olímpica.

Não é à toa que Dioniso é frequentemente comparado, na Teologia cristã, ao próprio Cristo (palavra grega correspondente ao hebraico “Messias”, que significam “O Ungido”), pois foi graças a Dioniso, que já nasceu de uma ressurreição (da coxa do deus-pai, Zeus), que o ser humano surgiu, e, ainda, através do processo de “eucaristia” grega, em que a carne e o sangue do redentor precisaram ser devorados (e levados em “sacrifício pascal” à fúria famélica e faminta dos Titãs, análoga ao sacrifício da Cruz de Cristo – e à sua vida sempre rediviva na metanoia da Sagrada Comunhão no corpo da hóstia) para a ressurreição final e definitiva ocorrer, consagrando-se, assim, a espécie humana à era da consciência, já que pôde vir à luz do mundo e habitar sob o sol por ordem do próprio deus-pai, Zeus.

            Pois dados esses pormenores mitológicos, o impacto da obra de Serguilha se revela em hierofanias matemáticas, como a música, mas num jogo verbivocovisual de linguagem suprassemântica que transborda do cálice dionisíaco e da carne de Baco numa epifania que – paradoxalmente – pode ser vista pelos seres humanos, não apenas pelos deuses.

            A obra de Serguilha não pode ser recepcionada por um ser humano que esteja com o inconsciente resguardado. Não é um contraste de consciências. Apenas. Mas é também. Como também subconsciente e arquetípica, para trazermos Jung à discussão. A obra de Serguilha não pode ser dada a cicatrizes ou a cauterizações, mas sim a peles que sangram o vinho sagrado da eternidade epifânica que só o inconsciente reconhece e enxerga. Música e a obra de Serguilha são recepcionadas pelo êxtase, caso contrário, não podendo ser confinadas, voam para o além. A fuga final não existe, porque é, antes, o preâmbulo de um novo prelúdio.

            E fuga.

2) Andante: Linguagem ou paralinguagem serguilhana?

            A par do pano de fundo (no sentido de Marcuse e da Escola de Frankfurt) maior que a obra de Serguilha encontrou, radicalmente e de modo aéreo (ao mesmo tempo), na música, há que falar, também, no significado de língua, idioma, idioleto que, aos desavisados, ou para termos maior complacência com eles, perfazem o paradigma inicial do Autor.

            Saussure, embora usando uma conceituação estoica e medieval, como Derrida sempre salientou, para a noção dicotômica entre significante (a parte física, fisiológica do som) e significado (a parte mental deste som), dizendo, com outras palavras, o que se conhecia respectivamente como signans e signatum, foi, a um só tempo, contra a tradição, ao mostrá-los como INSEPARÁVEIS, e a favor da tradição, ao apelar para a sua existência imperativa e categórica (para usar a expressão famosa de Kant).

Outra ruptura saussuriana à tradição metafísica do significado aristotélico, estoico, escolástico, agostiniano, de Wittgenstein em seu Tractatus Logico-Pilosophicus (que Wittgenstein tomou de empréstimo do pensamento de Baruch Spinoza, em suas obras Tratado Político, Tratado da correção do intelecto, Princípios da filosofia de Descartes, Pensamentos metafísicos e Ética demonstrada à maneira dos geômetras) etc. está no fato de que, ao considerar o signo como não passível de ser segmentado em significado e significante, Saussure também desconstruiu a “matéria velha” sobre a qual a ciência dos significados, acima exemplificada por importantes teóricos ou escolas e suas apologias,  construíra-se e consolidara-se.

A par disso, é necessário sempre apelar para a faceta sociológica de Saussure, que bebeu em Émile Durkheim e Auguste Comte a noção de coerção social necessária, que se aplicaria à língua como necessário elemento constituinte da possibilidade de comunicação humana. (É por essa razão que o ser humano não consegue conceber como elemento de linguagem aquilo que ele e todo o seu grupo não interpretem logo à primeira vista com um significado unívoco; e é esse significado unívoco, sobretudo a um grupo inteiro, que os significantes de Serguilha desafiam, levando o especatdor a um locus privilegiado, nada amoenus, em que ele se destaca da sua manada estoica e é conduzido a beber o fruto da Ilha dos Lotófagos, que encantou e quase perdeu os nautas de Odisseu). Em paráfrase explicitativa: se um grupo de indivíduos não compartilhasse um conjunto (sistema) de signos comuns àquele grupo, não haveria comunicação possível. Todo significante seria vácuo.

Algo que Serguilha coloca de cabeça para baixo.

Em outros termos, estamos discutindo uma relação séria da linguagem: vê-la como forma nomeadora, logocêntrica e/ou como forma de vida, etnocêntrica, multicultural, plural? Escrevi um livro sobre esse assunto, em que começo pelas obras de Aristóteles, Santo Agostinho e Wittgenstein I (o do Tractatus Logico-Philosophicus) e vou, passo a passo, à visão de língua como forma de vida, que perpassou o Wittgenstein II (Investigações Filosóficas), a desconstrução francesa, o pós-estruturalismo etc. Minha obra se chama Instâncias do sentido: o dicionário e a gramática – múltiplas interconexões semiológicas (CAETANO, Marcelo Moraes. Academia Brasileira de Filologia, 2010). Trago essa discussão à luz, agora, para começar a pensar na obra de Serguilha não como uma ruptura entre o logocentrismo linguístico e o etnocentrismo linguístico, mas como uma ampliação das fronteiras escorregadias entre esses dois pressupostos que, por muito tempo, chegaram a ser axiomáticos, a gozar das prerrogativas de postulados do tipo “se A é igual a B e B é igual a C, logo A é igual a C”. Em Serguilha, se A é igual a B e B é igual a C, devemos nos perguntar, antes de afirmarmos que A é igual a C: “Igual onde, como, quando, por quê, para quê?”

A obra de Serguilha, portanto, é uma união, por vezes desconcertante até ao mais heterodoxo pensador da Semiologia ou da Metafísica, entre língua logocêntrica, nomeadora e unívoca e língua como forma de vida, etnocêntrica, portadora, para remeter ao primeiro caso, do “significado transcendental” expressão que tomei de empréstimo de Jacques Derrida, em sua Gramatologia, mais uma vez. Por “significado transcendental”, Derrida compreende um Sema, que ele critica como oriundo da tradição metafísica, difícil de contestar e impositiva subliminar constante de sua presença, que vai para além da cadeia dos significantes, que ultrapassa o que ele, algures, como já salientei, chamou de “rastros de rastros” (traces de traces), e em que, portanto, se desconstrói com a noção clássica de signo sobre a qual mesmo os grandes revolucionários dessa ciência – a Semiologia – militavam, como Saussure e Wittgenstein. No entanto, Derrida não nega a necessidade do estruturalismo e da noção subjacente de paradigma (geral) versus sintagma (específico) para que a língua se faça entender em algumas instâncias, como na tradução, exemplo dado por ele mesmo. O que ocorre é que ele demonstra, somando, a esta noção, uma outra bem mais ampla, que o significado pode conter em si uma vida própria que não necessariamente (mas às vezes inevitavelmente) se dá por mero contraste estruturalista com o “sistema de pensamento” ou mesmo com o “sistema de uma língua específica”. O significante de Serguilha diante de seu receptor (na acepção de Iser e/ou de Gadamer) o comprovam.

E aqui se poderia pensar que ele estaria falando na noção de idioleto, que, basicamente, é aquela em que um subsistema do idioma, o dialeto, encontra um subsistema ainda menor, o subsistema do indivíduo – o idioleto. Mas no idioleto não é preciso falar em comunicação. E a obra de Serguilha comunica. Onde ficaria situada, pois? Wittgenstein tratou bastante da questão da “Gramática do indivíduo”. Mas não é isso que há, de fato, na obra de Serguilha. Apresento esses conceitos, como forma de concessão às vozes alheias e intelectualmente muito pujantes que citei, exatamente porque preciso desses pressupostos para ficar claro que não é em nenhum deles exatamente que a feição serguilhana se equilibra e desequilibra.

Trata-se, voltando-se àqueles teóricos desconstrucionistas e revolucionários, como Derrida e Wittgenstein, de uma noção que não nega a “matéria antiga” do pensamento clássico de significado, baseado na aludida dicotomia do signo: signicante/significado. No entanto, indo além da bipartição que essa mesma dicotomia gerou entre, grosso modo, logocentrismo e etnocentrismo,  bipartição que, no sentido hegeliano, muitas vezes se condensa numa síntese provinda da tese e da antítese de seu típico idealismo, a desconstrução vai a questões basilares da Semiologia que, assimiladas, podem ser aplicadas, em parte pelo menos, à leitura complexa da obra de Serguilha.

Trata-se, por exemplo, da importância dada à arbitrariedade da φονή (phoné, ou “som da fala”) e ao fato de que se privilegia, em linguística, o plano da fala (ou parole, para Saussure), em detrimento do plano da língua (ou langue). A escrita, portanto, teria um papel terciário nessa dicotomia: o de representar, limitadamente, a apoteose do signo enquanto elemento partícipe de um paradigma social e etnocêntrico específico que permite o repertório comunicativo de uma sociedade, ANTES pela fala e, somente subsidiariamente, pela escrita. Sabe-se que Derrida inverteu o início da cadeia, começando pela ESCRITA (γραμμά ou grammá, que, em grego, quer dizer “letra”, de onde ele escreveu “Gramatologia”), e não pela fala ou pela língua.

E é por ela que devemos, pois, começar a leitura de Serguilha. “Reduzir a exterioridade do significante é excluir tudo que, na prática semiótica, não é psíquico” – afirma   Derrida em Ensaios de semiologia – problemas gerais de linguística cinésica (Eldorado, 1971, tradução de Luiz Costa Lima). Trata-se de um conceito “psicologista” do signo que as Escolas de Copenhague e dos Estados Unidos da América souberam criticar. No entanto, não no seu ponto nevrálgico, que obras artísticas como a de Serguilha fazem eclodir como o magma de um vulcão ígneo: o significante, sobretudo o escrito, possui autonomia bastante a criar, a partir de si, uma “estrutura-sistema” que permita a sua intelecção sem necessariamente precisar do sistema ou paradigma, nem mesmo o da coerção social imperativa e categórica, nem mesmo aquele em que se situa por si só, ontologicamente, como significante (o que Todorov chamaria de crítica imanentista), para criar o caleidoscópio multifacetado e instável que propala para além de si, atravessando o leitor, em vez de ter nele uma parede onde acabaria.

Wolfgang Iser, em Act of reading, tocou num aspecto que me parece importante agora salientar: a diferença entre “tema” e “horizonte”. Não vou penetrar na Escola da Estética da Recepção, da qual o teórico ora trazido à luz é signatário dos mais importantes, mas, dentro da Semiologia clássica (e posso percebê-la como a logocêntrica e a etnocêntrica unidas, como já demonstrei desde sua gênese até sua teleologia), a obra de Serguilha é uma placa tectônica que se moveu e inverteu, não totalmente nos sentidos de Derrida nem de Iser, a noção da hierarquia saussuriana do sistema sobre o subsistema, ou da estrutura sobre a forma, ou do significado sobre o significante, ou da langue sobre a parole, ou do psíquico sobre o sonoro. Outro autor que foi subvertido, sem dúvida, e que, sabidamente, inspirou, dentre tantos outros, a obra de Saussure e de Hegel, foi Descartes, com sua ideia de que as partes são menores do que o todo, e só através do conhecimento das partes (ou subpartes) em contraste com o todo (ou subtodos) de que participam se poderiam tirar conclusões lógicas. Sem o todo não se pode, para Descartes, conhecer as partes, em, por outro lado, sem as partes, o todo não será jamais cognoscível. Isso é lógico. Ou melhor: é Lógica.

Mas Serguilha não correlaciona todo e partes de modo unitarista. Cada parte é um todo e cada todo não passa de parte.

Ocorre que, em Serguilha, antes de tudo, a Lógica não precisa ser evocada como pano de fundo para análise. Pode-se, até, dizer que, sem esse aparato ocidental de intelecção, a obra de Serguilha é, sim, ao contrário do que alguns leitores tenham dito, completamente compreensível e inteligível. Não quero falar que é compreensível “dentro de uma lógica própria”, paráfrase tão desgastada que já virou clichê improfícuo nas searas das artes, como, diga-se em tempo, já se falou sobre James Joyce, ou Guimarães Rosa, por exemplo. Em primeiro lugar, o clichê acima mostrado não cabe em Serguilha porque o gênero textual de Joyce e Rosa, em que pese às revoluções lítero-estilístico-literárias ali consolidadas, encontra-se bem comportado dentro do pré-estatuto da “prosa-ficção”. Nisso, já há um abismo intransponível de linguagem e paralinguagem entre os aludidos autores (o irlandês e o brasileiro) e Serguilha. O texto de Serguilha não parte de gênero algum. E tampouco chega a algum gênero. O texto de Serguilha não é pré, nem pós, nem supra, nem sub, nem durante… É cerne. É meio. Nele há o meio do antes de tudo, que Ovídio, como eu sempre repito, abre sua Teogonia: rudis indigestaque moles – “matéria rude e sem forma”, e que a Bíblia propala em Êxodo e repete no Evangelho de São João: “No princípio, era o verbo”. É o do ab ovo (“do início”), da obra Odisseia de Homero, que, ironicamente, volta, em vez de ir para além. É o meio do in medias res, da Ilíada do mesmo (suposto?) Homero. É o meio do que em Teologia se chama Escatologia: o fim. E, para começarmos tudo, é, também, o meio do que a mesma Teologia chama de Parusia (do grego “presença”): para além do fim, illo tempore, o “Juízo Final”, o É de tudo o que já foi e de tudo o que NÃO SERÁ MAIS. O “EU SOU O QUE SOU”, autodefinição do Deus bíblico para o Moisés do Antigo Testamento.

Em Serguilha não há uma lógica própria. Tampouco há uma falta de lógica própria. Simplesmente ele faz, para nos aproximarmos um pouco teoricamente de seu poiein, “jogos de linguagem”, como diz Wittgenstein em suas Investigações filosóficas: “§ 559: É preciso não esquecer que o jogo da linguagem é dizer o imprevisível” diz Wittgenstein, que assim continua “– isto é, não se baseia em fundamentos. Não é razoável (ou irrazoável). Está aí – como a nossa vida.” (WITTGENSTEIN, Investigações filosóficas).

A obra de Serguilha não é razoável ou irrazoável. Está aí – como a nossa vida.

Entretanto quero voltar a um ponto que me parece de importância capital: a subversão das hierarquias semiológicas clássicas, criando uma semiologia desconstruída, pós-estruturalista e cinésica – só para termos pontos já visíveis e existentes com que dialogar. Porque, como eu disse, a obra serguilhana de modo algum ESTÁ ali. Ou seja, Derrida também não é o único, com sua “luneta mágica”, para usar a expressão de Manuel Antônio de Almeida, a poder iluminar a obra de Serguilha, fazendo com que ocorra a emergência de seus significantes para que estes atravessem a intelecção do leitor e entrem num redemoinho cósmico de cujo vórtice não se pode fugir, uma vez iniciado o processo.

Trata-se de um fator muito simples, que por enquanto bastará à primeira elucidação. Por toda uma longa tradição ocidental, somos levados a só encontrar sentido nos significantes mediante o contraste destes com seu pano de fundo, um sistema ou subsistema qualquer, que os precederia e sucederia ao mesmo tempo. O significante, portanto, ficaria esmagado entre dois blocos formados pela “superioridade” do sistema ou subsistema que o engendrou e lhe deu vida. Antes e depois desse sistema ou subsistema só haveria o caos. Ininteligível, incoerente, inumano. Essa visão é quase universal, e, sem ela, o embaraço ocidental é a queda num abismo espiralado que cresce monstruosamente como a Alice de Lewis Carroll no labirinto de seu próprio espelho. No entanto (e por isso evoquei Iser), a obra de Serguilha começa pela supremacia dos significantes que, passo a passo, mas também de súbito, criam sistemas e subsistemas próprios, que não precisam ser comparados, cotejados ou contrastados uns com os outros e, mais ainda, repito, não precisam ser lógicos – nem ilógicos. São como a vida – estão aí.

A obra de Serguilha está justamente no antes e no depois dos sistemas autocráticos da significação que é o imperativo categórico clássico dos significantes. A obra de Serguilha está no Caos-Cosmo de Deleuze, como eu já apontei algures, e, por isso, liberta a opressão unitarista e mesmo polissêmica ou anfibológica da “parte física do signo”, o significante, repita-se, fazendo com que uma andorinha se transforme numa revoada de pardais, pombas, andorinhas, beija-flores, átomos, subátomos, estrelas, pósitrons, arco-íris, antipartículas, notas musicais, folhas e ventos.

Recortes temáticos dentro dos blocos da obra de Serguilha são como ambiências musicais, não como designata, muito mais do que ambiências conceituais, portanto. Por isso, inclusive, quis eu começar esta exegese ou ensaio da dicção serguilhana pela comparação inevitável com a música. No entanto, a música também está presa à supremacia psicologizante, ao menos sob o viés de interpretação clássica dos significados. Apesar disso, a música é um passo além da visão clássica, porque prescinde, desabusadamente, da lógica tradicional.

Falar-se de “lógico” ou “ilógico” em música é inconcebível até para o primeiro dos lógicos canonizados no ocidente: Aristóteles de Estagira. Nem mesmo seus conceitos de verossimilhança interna ou verossimilhança externa podem ser aplicados à música ou à obra de Serguilha. O teatro, sabe-se, quebrou a parede e a lógica (sinônima de “aquilo que se espera” ou que é “verossímil” em Aristóteles) por Brecht, Beckett, Boal e outros, que suberverteram a catarse aristotélica e debocharam desabusados do “terror e compaixão” do estagirita. Mas, ainda assim, havia uma lógica, porque se espera algo de Brecht, Beckett, Boal e outros: há uma catarse, ainda que calcada na não-catarse. A verossimilhança deles continua existindo: numa perspectiva interna. Mas essa mesma lógica não pode ser aplicada à música nem à contextura serguilhana.

E vou além: nem mesmo pode ser aplicada à Física contemporânea. A física quântica não é lógica nem ilógica. Não é razoável ou irrazoável. Está aí – como a vida.

Quero dizer, em outras palavras, que, por exemplo, ao dizermos as duas frases seguintes: 1) “Minha morada tem um jardim lindo, que rego todas as manhãs” e 2) “A linguagem é a morada do ser” (Heidegger), o significado do significante “morada” ganha acepções bastante distintas: em 1), pode-se ver como sinônimos “casa”, “lar”, “habitação, “residência”, “moradia” etc.; em 2) emerge a noção psíquica de “essência”, “fundamento”, “base”, “irredutibilidade” etc. Não quero só discutir denotação e conotação. Vou além disso. Ora, foi o contexto, o subsistema, o sintagma e o paradigma que permitiram a decodificação do significante, mesmo em denotativo e conotativo. Perceba-se como a “matéria velha” tem de recorrer, como numa lei gramatical e lexicográfica intrínsecas à natureza humana de lidar com a faculdade da linguagem sob o parâmetro clássico, da lei sinonímica, em que os sentidos dos significantes só são ontologicamente comprovados, a par de seus paradigmas conceituais mais amplos, num paradigma mais estreito, em que significantes do mesmo campo semântico dançam entre si e comprovam a verossimilhança sígnica e confortável daquele significante analisado: MORADA.

Já se eu digo: 3) “O amor é um sórdido embuste pelo qual a natureza nos leva a continuar a espécie”. (W. Somerset Maugham) e 4) “Ao toque do amor, qualquer um vira um poeta” (Platão), é o significante (“amor”) que estabelece o contexto sobre o qual ele próprio impera. O “amor” é o mesmo, mas seus conceitos, denotativo-conotativos, mudam. Perceba-se como nos casos do parágrafo anterior (1 e 2), detemo-nos mais, no fim das contas, no conceito e no que o conceito, como um todo, quis dizer e os significantes (morada 1 e morada 2) são apenas instrumentais, são veículos de consecução da inteligibilidade  do contexto, que, portanto, é hierarquicamente superior ao significante. Já neste parágrafo de agora, os significantes (amor 3 e amor 4) é que são o centro da atenção, e eu posso defini-los com outras palavras (o contexto), mas não posso deixar de ser fiel aos significados deles, significantes, que, portanto, eles sim, aqui, constroem e reconstroem seus contextos sendo fiéis, contudo, às suas significações originárias.

Em outros termos, no caso em que se usaram os significantes “morada” (1 e 2), estes poderiam ser substituídos por sinônimos (significantes que, num paradigma específico, apresentam o mesmo significado, enquanto que seus conceitos (ou contextos) NÃO poderiam ser substituídos por paráfrases que não fossem muito fiéis à conceituação prescrita. Por seu turno, no caso em que se usaram os significantes “amor” (3 e 4), eles, naquela situação, NÃO poderiam ser substituídos por sinônimos perfeitos (“paixão”, “volúpia”, “erotismo”, “fraternidade”, “desejo”, “compaixão”…?), já que eram o ponto de partida e de chegada do contexto, e este mesmo contexto (ou conceito), em contrapartida, poderia, agora, ELE SIM, ser substituído por uma paráfrase que fosse fiel, pois, ao SIGNIFICANTE, e não ao conceito por si só. Em resumo, um caso é o oposto do outro e, enquanto um faz emergir o significante-contexto, o outro faz o significante submergir na teia do significado-contexto ou do conceito. Aqui reside parte substantiva da instabilidade da obra de Serguilha. Quem não chegar a este sentimento passará pela obra como o olho nu que não consegue absorver as maravilhas muito minúsculas ou gigantescas de mais.

Arthur Schopenhauer diz, em A arte de escrever, com outras palavras, que o significante nunca degenera o sentido do referente. Entenda-se por “referente” o que é apontado (como diriam Agostinho de Hipona e o Wittgenstein I, o do Tractatus, quando usa o termo alemão nennend) no “mundo dos objetos” (como diria Cassirer). Schopenhauer exemplifica, op. cit., que o substantivo alemão Frau (mulher) não degenerou a mulher do mundo dos objetos, mas que o contrário teria ocorrido (havia uma preocupação, na época da feitura do livro em questão, em não se chamar às mulheres de Frau, porquanto tal expressão, dizia-se, era preconceituosa, mas, em seu lugar, de Weib). Aqui, para ilustrar esse simples pensamento do autor da obra-prima Die Welt als Wille und Vorstellung, de 1819 (O mundo como vontade e representação), eu, certa vez, usei como exemplo da verossimilhança do argumento de Schopenhauer os nomes próprios dos bairros de qualquer cidade do mundo, que, não importando a etimologia do significante, acabam sendo pejorativos ou meliorativos em função, mesmo, do referente (no caso, o bairro) que nomeiam. Isso salta à vista de qualquer ser humano que habite qualquer cidade do mundo. Schopenhauer é autor cuja premissa de um caos iluminista inspirou, ainda que como antípoda, o pensamento de Nietzsche e de William James, numa prova de que, assim como Vico, em La nuova Scienza, há autores que podem ser propulsores de correntes filosóficas, estéticas, metafísicas, ontológicas, epistemológicas, morais e éticas não apenas diferentes, como contrárias, como “terceiro incluído”, anti-aristotélico, onde algo pode ser verdade e mentira simultaneamente. O texto de Serguilha, pois, é logocêntrico e antilogocêntrico ao mesmo tempo.

Schopenhauer, ao criticar Kant com argumentos científicos como a eletricidade e a gravidade, criou um terceiro incluído que, nascituro, não teve nome e possibilitou a consecução de teorias que buscavam, na lógica tradicional e clássica, a irracionalidade patente que Arthur impingiu a golpes de martelo no cerne da fenomenologia de um espírito que não se descreve ao modo de Hegel, mas se observa analiticamente, como os teóricos e aplicadores da física quântica definirão suas disciplinas exatas; mas não ao modo de Edmund Husserl ou de seu pupilo Heidegger, tampouco. Assim como o espírito humano não é passível de descrição, porque todo o poder da palavra é ilusório e fortuito ante o noli me tangere da natureza humana, o significante/significado, por outro lado, é tudo o que temos para estarmos onde somos. Portanto, somos limitados porque somos ilimitados. O mais profundo das profundezas revela com loquacidade inconteste o raso. A mera previsão desse infinito profundo provou matematicamente (sic) para Descartes a existência de Deus. O verbo-ato que havia no início é a matéria-prima que haverá após o fim, e, finito que é, conduz, contudo, à infinitude estelar e cosmogônica presente na obra tão concreta e sempre cenestésica de Serguilha.

Ocorre que essa reflexão, quase fenomenológica e quase ontológica, embora tangente à obra de Serguilha, tampouco a ilumina com o mínimo de emergência de significantes de que precisamos para a sua absorção. Desfaz um embaraço, mas cria outros mil.

Isso porque toda essa operação dicotômica, embora pareça antítese uma da outra, não o é: em ambos os casos, está-se lidando com a dicotomia clássica do semeion ou signo, tratados, de uma forma ou de outra, em Rousseau (em seu Tratado sobre a origem das línguas, por exemplo), Descartes, Hegel, Husserl, Heidegger, Platão, Aristóteles, Lévi-Strauss, Newton, Copérnico, Lavoisier, Darwin, Einstein… Até mesmo no dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard, por exemplo quando afirma, escravizando no absoluto a preeminência de suas “partes”, que “o indispensável é o absoluto”.

Mutatis mutandi, para a simples propedêutica de Serguilha, “absoluto” é, também, um conceito aprisionador.  O absoluto é necessário, mas não suficiente.

Digo isso uma vez que, tanto no caso em que o contexto acima precedia o significado do significante (“moradas”), quanto no caso antitético em que o significante impunha um significado a seu contexto (“amores”), e também na discussão de que o referente degenera o significante ou vice-versa, lidava-se com sintaxes clássicas, em textos linguisticamente clássicos, com sintagmas clássicos, paradigmas clássicos, referentes clássicos e – o que é o maior fator de divórcio com a obra de Serguilha – em operações mentais e psíquicas clássicas. Daí que a discussão, lá naquelas searas, é profícua, úbere, fértil. Mas, se fosse trazida ipso facto à obra de Serguilha, ficaria, nela, no famoso ciclo vicioso em que se quer saber quem veio antes: o ovo ou a galinha. A famosa falácia “petição de princípio”.

É preciso outro conjunto de aparatos que não são razoáveis ou irrazoáveis. São como a vida – estão aí.

3) Rondo alla turca

            Este é o título do último movimento da famosa sonata com variações em Lá maior de Mozart. Escolhi-a para ser o título homônimo da terceira parte de meu estudo sobre a obra de Serguilha pelo fato, até aparentemente ingênuo, de que a obra de Amadeus é, como indica o nome, um rondó (tipo de estrutura musical que, como os cânones, repete o tema central em melodias sem grandes variações), e pelo fato de que a obra de Serguilha, como num rondó prenunciado na primeira parte deste estudo, volta-se a si mesma numa estrutura capaz de quebrar-se em micropartículas que transcendem qualquer estruturalismo.

A literatura contemporânea, como já tive oportunidade de escrever em outros pontos, desconstrói com grande desenvoltura os cânones vigentes, e os reconstrói, como quem o fizesse com destroços de um navio náufrago, a fim de colocá-la novamente na roda do grande oceano das artes, que gira sem sair do lugar, mas chegando sempre a lugares novos, acordando eternamente diferente. Como na Demanda do Santo Graal, em que os cavaleiros arquetípicos de toda a Idade Média – Galaaz, Boorz, Parsifal, Lancelote e o Rei Artur – buscam por uma Oriana, a sem par, a bem-amada, que, como a Dulcineia Del Toboso do Quixote de Cervantes, talvez a busca não exista senão na imaginação de seus tresloucados defensores audazes. Ou talvez, como já se disse, o objetivo seja a busca. O fim seja o meio.

Permito-me digredir sobre a revolução que vejo na obra de Freud aqui. Para o vienense, “sujeito”, “objeto” e “caminho” se tornaram uma só episteme: a psicanálise é isso, ou pressupõe isso. Início, meio e fim só um só termo. Explico: o sujeito é objeto do psicanalista e o psicanalista só chega a esse sujeito-objeto pelo discurso-meio-caminho de seu próprio sujeito-objeto, criando, portanto, em seu paciente-agente, um sujeito-objeto-discurso, ou começo-meio-fim, igualitários como num desvendar epifânico e teológico da Santíssima Trindade, em que Pai-Filho-Espírito Santo estão unigênitos.

Brahma-Vishnu-Shiva também encarnam essa trindade?

            Assim é a literatura de Serguilha: começo-meio-fim.

É a cavalaria medieval, e o romance em seu estado último, que é poético em éter, mas indefinível em estrutura organizacional, e é, ao mesmo tempo, um desafio à cavalaria medieval, na figura do “Cavaleiro de Triste Figura”, que, crendo estar em combate com seus antecessores, na verdade sublinha seus feitos a tal ponto que os transcende. Exatamente como um Rondó musical. À moda turca.

            O Quijote lutou contra moinhos de vento, contra frades, contra féretros, contra Maritornes, para defender a honra de uma dama que nunca foi vista. Os cavaleiros da Demanda lutaram contra a besta ladradora, contra a vingança de Leonel, contra a mulher da capela, contra o castelo felão, contra a fonte da virgem, contra tentações, em busca de um cálice que talvez seja tão mítico quanto Oriana e Dulcineia.

            Dessa forma, o Ciclo Arturiano (matéria da Bretanha ou matéria arturiana), que se compõe, ainda, da História do Santo Graal, Merlim, O livro de Lancelote do Lago, As aventuras ou a Demanda do Santo Graal, A morte do Rei Artur, assim como os dois tomos em que as aventuras e descaminhos do Quixote cervantino (matéria ibérica, de que Serguilha faz parte congênita) se passam, em antíteses que se recompõem a todo instante, como dois Ciclos que, crendo convalidar um duelo, propiciam, em vez disso, um dueto.

            A matéria e antimatéria de Serguilha não se digladiam sem que, a par disso, componham um dueto que as sustenta em suas insustentáveis levezas. Do ser ou não ser.

            Por falar em Hamlet, a questão aqui levantada é muito elucidativa na peça de Shakespeare, que seria um verdadeiro Anti-Édipo deleuziano em forma de literatura e séculos antes do gênio francês. A relação do parricídio esboçada na tragédia grega da Trilogia Tebana de Sófocles, Édipo Rei (ou Édipo Tirano, como prefiro traduzir), ocorre às avessas no Hamlet. No Édipo, premido pelo que Deleuze chamou de um senso subconsciente de fascismo introjetado, que faz com que o sujeito busque obter o mesmo poder (eis que ele retorna à nossa arena) que o oprimira (aqui parafraseei O Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari), o personagem principal da peça tem de matar seu pai, antecessor, a fim de usurpar-lhe o trono que, por natureza, seria dele num momento mais fronteiriço à sua maturidade e legitimidade em assumi-lo (por isso Édipo não é um Rei, pois não goza da legitimidade monárquica, mas um Tirano, conforme a palavra que o próprio Sófocles usou em sua peça, erroneamente traduzida como “rei”). No entanto, para voltar à natureza e à legitimidade da ascendência/descendência, Édipo precisa gerar em sua própria mãe uma ancestral Antígona (do grego “anti” = contra; “gona” = nascimento), que cuidará do pai após o desfecho da tragédia intermediária da trilogia, na derradeira das peças desta: Antígona. O amor por sua mãe, Jokasta (do grego: ”ios” = veneno e mel; “kasta” = do verbo grego “curar”) foi a “cura”, “doce e venenosa”, para a ruptura que o parricídio representara, uma vez que a descendência não pode estagnar-se.

A literatura é isto: a descendência não pode estagnar-se. Em duelos ou duetos, em duelos e duetos, a descendência segue. A paródia ibérica de Cervantes às matérias de cavalaria em geral não destruíram tais matérias, mas as reconstruíram, insuflando-lhes um fôlego vital à continuidade da progênie literária. Se fôssemos além do próprio Quixote, chegaríamos à Madame Bovary, de Flaubert, personagem que tipifica, tal qual o Quixote, que a leitura (no caso de Emma Bovary, dos romances do Romantismo propriamente dito, os do século XIX), precisa ser engolida e regurgitada, para, então, ser vomitada, como os Titãs o fizeram com Dioniso, que seria por nós comido para retornarmos à Comunhão do corpo e sangue ou pão e vinho de Dioniso e Jesus Cristo. Tanto o Quixote quanto Emma Bovary “enlouqueceram”, decidiram criar uma ética e uma honra próprias, em função do excesso de leitura que os acometeu, como um “contágio”, palavra que Foucault usava, com Barthes, para descrever o que a literatura gera no indivíduo. Para esse contágio, a única “cura” é ir até o fim: o que Freud chamou de “pulsão de morte”, a falta de freios, o beber das águas mais profundas, o incessante desejo pelo absoluto, como complementaria Kierkegaard, já por mim citado, com sua obra-prima Ou isto ou Aquilo.

            Podemos, seguindo os passos de Quixote, iniciados nas matérias de cavalaria, encetadas, por sua vez, pelos trovadores, precedidos menestréis, de rapsodos, aedos etc. até a noite dos tempos e o jardim de infância da humanidade, ir além: podemos ir à Luísa, de O primo Basílio. Em seu artigo “Eça de Queirós, autor de Madame Bovary” (In: Uma literatura nos trópicos), Silviano Santiago explicita, nas primeiras linhas, a articulação deste título com o de Borges: Pierre Ménard, autor do Quixote. (Ménard, coincidentemente – será? –, é o sobrenome de um dos tradutores da antiga tradição da Alquimia, da Astrologia e da Psicologia Mística de Hermes Trismegisto, ou Toth, no Egito, que originou toda a tradição ocultista levada à luz por nomes como Helena Blavatsky, com seu Ísis sem véu ou A voz do Silêncio.) No texto de Santiago, o adultério de Luísa (ou sua ética própria) reconstrói o adultério de Emma, pelo fato de os dois “crimes” terem sido cometidos por mulheres burguesas esmagadas por um sistema patrilinear que, aliás, havia sido denunciado, também, no Dom Casmurro, de Machado de Assis, caso este (de Capitu) em que o adultério pode não passar de devaneio e neurastenia de Bentinho, tão imaginário quanto o Santo Graal, Dulcineia Del Toboso, a honra e a ética de Emma, de Luísa, de Hamlet etc. O fato é que a literatura lida com a imaginação e com a imaginação do imaginário, o que é a metalinguagem literária em seu estado puro, ou o que eu chamo, reiteradas vezes, de arquimetalinguagem. No caso da literatura, a arquimetalinguagem não é “falar sobre” (isso é metalinguagem), mas “falar sobre o que fala sobre, sem falar”.

            Hamlet, por seu turno, figura de natureza andrógina, quase assexuada, que faz uma bela personagem como Ofélia suicidar-se à beira do salgueiro do lago, louca de paixão por um homem que não a desprezava, mas simplesmente não a considerava sequer como vivente, é um personagem que dialoga face a face com Édipo, como, aliás, já foi explicitado por Jacques Derrida, Por Élisabeth Roudinesco, por Gilles Deleuze e por mim, em artigos sobre construção e desconstrução no laborar literário. Ocorre que, ao contrário de Édipo, Hamlet honra, como um verdadeiro cavaleiro medieval da matéria bretã ou da matéria ibérica, tanto em sua ode como em sua paródia, a morte do pai.

            Honra é o assunto de Hamlet. Existência é o seu tema. Vingança a sua tese. Legitimidade e natureza os seus argumentos. Ode e paródia o seu modus operandi.

            Dentre outros teóricos, Hamlet prefigurou Sartre, Simone de Beauvoir, Hanna Arendt, Melanie Klein. E por que não Camile Paglia e Susan Sonntag?

            Todos esses espelhos multifacetados, como o próprio espelho em que Alice, de Lewis Carroll, entra e vê até um séquito de homens invisíveis (?), súditos da Rainha de Copas, são dialogismos perenes no fazer poético, na labuta literária, na faina artística.

            O gênio grego possui um conceito que resume este movimento: “antiperístase”. Trata-se de um movimento que evidencia seu contrário. Assim, as pausas de Beethoven são mais ensurdecedoras que seus acordes dissonantes e dificílimos de serem digeridos; os significantes abstrusos e amplos de Serguilha são uma carícia muito maior no classicismo pacífico das ovelhas e das fontes árcades que qualquer texto do neoclassicismo, e contemplam a insubsistência do todo e sua fragilidade face às partes, e versa-vice; a supremacia de Mozart está no fato de que ele não destrói suas origens, mas as desconstrói como um menino brincalhão que desmonta um fantoche para remontá-lo com as mesmas estruturas, mas muito mais bonito e divertido.

            O lado lúdico de Serguilha, motivo ulterior por que o comparei, também, à obra de Mozart, está na subsistência de uma matéria antiga que, carcomida pela ferrugem e pela cal, reconstrói-se sobre metais e gases cada vez mais diáfanos, até chegar a um não-ser, a um não-estado que permite a convivência bélica e pacífica simultaneamente de todos os significantes-significados, num infinito que só dois espelhos permitem entrever quando face a face. É pós-Sartre, sem ser nem pós nem sartriano.

            Não é por outra razão que o sujeito poético, fantasiado de Serguilha, inverte todas as possibilidades de antagonismos em conflito e evoca a musa, metaforicamente, da discórdia: Éris, a que causou a guerra de Troia (a Ilíada, portanto), ao jogar um pomo com as palavras lucífugas: “Á MAIS BELA DAS IMORTAIS” – só por não ter sido convidada para as bodas no Olimpo. As deusas, imortais, e um tanto imorais, digladiam-se pelo título honroso: Hera (ou Juno), Afrodite (ou Vênus) e – o que é mais incrível – até Palas Atenas (ou Minerva) se deixam seduzir pelo “convite” maledicente e cada uma requer para si o galardão de “A MAIS BELAS DAS IMORTAIS” com seus acólitos subsequentes.

               Início da guerra que é o arquétipo de todas as guerras. Carl Von Klausewitz afirmou isso, com outras palavras: todas as guerras do mundo se motivam por algo semelhante ao estopim da famosa Guerra de Troia. Esta contextura, em especial – VARDARAC-HIKARIDO – perpassa as contradições conviventes dos significantes de Serguilha. Nesta peça, o sujeito poético tem por bem destacar os significantes que pontuam, ao maestro, isto é, ao leitor, as pausas (repousos e tréguas) e as investidas (batalhas e vitórias) que devem ser empreendidas em prol da psicogênese humana místico-científica.

               Em grego, consta que uma das traduções possíveis para o vocábulo “agonia” é “não-nascimento”, mas também “não-guerra”. A ausência dos domínios de Ares (ou Marte) sufoca e asfixia letalmente a psiché humana. A obra de Serguilha é uma guerra de física newtoniana, com elétrons, mas também quântica, com elétrons positivos, ou pósitrons, e, ao mesmo tempo em que acusa-acaricia os simulacros, faz com que eles sirvam de tapeçaria-pano-de-fundo para a Veritas que a sua obra de arte propicia, insuflando oxigênio e água aos seres viventes da terra.

               Se a água tem tubarões e é alcalina, não neutra, é porque o pêndulo de Serguilha não pode parar. Nunca. Se os himens não fossem bélicos, os semens não germinariam seres vivos. Não seriam contempladas, por miríades de pupilas, as fendas das palavras infinitas.

               Serguilha não narra: explode em antimatéria de significantes cuja uberdade é a presentificação da ontologia mais profunda e atlântica da língua portuguesa-híbrida em todos os seus colapsos germinais e semióticos.

            Eu quis me abster de pinçar outros exemplos dessa esplêndida coletânea, KOA´E, pelo fato de que pretendi, antes, conduzir o leitor à sensibilidade de que só ele, RECEPTOR-AGENTE, pode entender a obra de Serguilha, e que esse entendimento passa por um estado de êxtase e fôlego necessário para a absorção da (anti)matéria serguilhana que prescinde, até, da comunhão de compreensões que a língua clássica pressupõe.

            Tudo o que eu (além de Shakespeare) falei sobre ser e não-ser em estado vivo dentro da mesma substância coincide com a lição seminal que Richard Feynman, prêmio Nobel de Física, um dos grandes teóricos de todos os tempos sobre física quântica, fala sobre esta matéria ao conceituá-la, em seu proverbial: Física em 12 Lições: fáceis e não tão fáceis (Rio de Janeiro, Ediouro, s/d): “Tendo exposto a ideia do campo eletromagnético e que esse campo pode conduzir ondas, logo descobrimos que essas ondas na verdade se comportam de uma forma estranha que parece muito pouco ondulatória. Em frequências maiores, comportam-se muito mais como partículas! É a mecânica quântica, descoberta logo após 1920, que explica esse estranho comportamento” (os grifos são do próprio autor).

            Num outro momento, ainda mais desafiador, mas em que se percebe o dueto com o Mestre da Física e da Matemática Newton e com seu discípulo e igualmente desafiador Albert Einstein, Feynman, em duelo/dueto com os dois gigantes antes citados, afirma: “Nos anos anteriores a 1920, a imagem do espaço como tridimensional e do tempo como algo separado foi modificada por Einstein, primeiro em uma combinação que denominamos espaço-tempo curvo para representar a gravitação. Assim, o ‘palco’ torna-se o espaço-tempo e a gravitação é presumivelmente uma modificação do espaço-tempo. Depois, descobriu-se também que as regras de movimento das partículas estavam incorretas. As regras mecânicas de ‘ inércia’ e ‘forças’ estão erradas – as leis de Newton estão erradas – no mundo dos átomos. Ao contrário, descobriu-se que as coisas em escala pequena não se comportam como as coisas em escala grande. É isso que torna a física difícil – e muito interessante. É difícil porque o modo como as coisas se comportam numa escala pequena é totalmente ‘antinatural’; não temos experiência direta com isso. As coisas não se comportam como nada que conhecemos, e esse comportamento só pode ser descrito analiticamente. É difícil e requer muita imaginação” (id. ib, os grifos são do próprio autor).

            Dessa maneira, a Física, segundo os quânticos do jaez de um Richard Feynmam ou mesmo Fermi, ou até os matemáticos, como Henri Poincaré, traçaram correlações dessas ciências “exatas” com áreas como a química, a biologia, a astronomia, a geologia, a psicologia etc. E podemos nos perguntar: não estarão aí implícitas as correlações com os outros campos do saber: filosofia, teologia e artes?

            A obra de Serguilha não teria subjacentemente, o papel de elo entre a matéria clássica e exata e a nova matéria arquetípica e antiquíssima das físicas e matemáticas inexatas e a filosofia, a teologia e as artes? Teoria-ontologia-TEOLOGIA?

            Acaso não se percebe, nos significantes e na sua emergência, em Serguilha, uma harmonia desarmônica e/ou enarmônica entre Ciência, Teologia, Artes e Filosofia?

            Definitivamente, sim.

            Em outras palavras, assim como a gênese da física quântica aponta para um aparente paradoxo e pressupõe o conhecimento do classicismo em termos de física (a mecânica e a álgebra, aritmética e geometria clássicas) assim também são os significantes de Serguilha: buscam no Arché clássico a plenipotência para transcender-se a mecânica e, mecanicamente, ir ao estado de ondulações em que o que está em pequena escala se comporta de modo diferente do que está em grande escala, mas de modo que, exatamente por sua diferença, os iguala nisto: o universo é diferença e só na diferença das diferenças (a arquimetalinguagem vista por outro telescópio ou por outro microscópio?) sobrevive a plenitude a que se chega pela música ocular de Serguilha.

Luís Serguilha, o clássico-contemporâneo – Kátia Torres Negrisoli

•Janeiro 25, 2011 • Deixe um Comentário

A poesia de Luís Serguilha revela o  que há de novo na Literatura Contemporânea do século XXI. Impressiona pela evolução do pensamento, seqüencial, circular ou helicoidal; não é de  fácil entendimento, pois apresenta citações e vocabulário peculiar  pertencente ao jargão da biologia, da dinamicidade dos organismos até a interação da vida, das profundezas abismais, das reentrâncias da terra e de suas inflorescências quase pubianas à denúncia da eroticidade plasmada na natureza primordial, elemento-chave de toda a sua escrita, que é do subsolo, da floresta, do rizoma.  Um estilo novo que veio para ficar e incomodar; reflete posturas  atuais na linha do tempo-espaço, do exagero das informações a que somos submetidos diariamente, da necessidade de atualização constante, deste ir acelerado e contínuo. Certamente, pós-contemporânea, o que se pode observar nas imagens evocadas nos neologismos compostos à feição de um Guimarães Rosa urbano, como:  nas expressões “corais-bosques-microfotográficos, espáduas-gulas das iluminuras, plâncton-quadrângulo, anfiteatros-CURANDEIROS, estômago-cachimbo” (Processionárias,  p. 72 ), na disposição das palavras, e também,  dos recursos visuais da pontuação em forma de linha, que permite ao leitor retomadas e momentos de descanso  ou análise, para  prosseguimento da leitura , que é novamente interrompida com palavras grafadas em caixa-alta, um grito, uma chamada de atenção, uma necessidade.

 Podemos verificar, no texto-trecho de O externo tatuado da visão, o que se afirmou acima, através da presença sutil, erótica e apeladora da sua biológica e imagética linguagem-escrita:

“Aceitar as luzes   vindimadoras do tropel como uma rosa desorientada

nas palpitações abertas do membros felizes

Um rosto marinho adere à confidência duma vertigem subtil

e a semente da penugem deslumbra-se na frescura solitária da boca

esta origem incandescente a escancarar-se na terra desfolhada

este caminho de sopros reservado à nascente asfixiada das palavras

Os insectos azuis quebram a designação inocente dos seios sobre os perfumes embrenhados nas ruínas maternas

para completarem os barcos finíssimos de resina

e nas tuas mãos novamente os fulcros

das hortênsias parecem um fluxo de sol apressando as esperanças dos

chocalhos nas areias sumptuosas da sombra

como uma construção minúscula dos lábios a

curvar-se no fulgor redobrado da claridade

e uma lâmpada respira repetidamente na perfuração perpétua

dum valado

onde os carris líquidos da constelação se erguem infiltrados na

infinita árvore.”

 

 

As hortênsias suntuosas ao sol, a sombra em antítese curvando-se à claridade e a rosa que sucumbe aos impiedosos insectos azuis, feições de leão-marinho recortadas. Além do destaque para as palavras que ‘iluminam’, brincam com o sol, fazem despontar as outras cores existentes no texto.

Na p. 11 de Processionárias encontramos os mesmos elementos-cores, com destaques também, para o azul, céu, infinito dando ao escritor-mergulhador a escolha da direção do seu trajeto, neste vai-e-vem contrário em “ …as herbáceas, plantações… as borboletas traçam o efeito cortante neste azul, delineando a paisagem, dando local e voz às processionárias…” inferimos, então,  que os pássaros evidenciam outro corte, masculino e objetivo, ao contrário das borboletas,  vivazes, mas que sem destino ‘volteiam’.

Sua escrita é revelada, ininterruptamente, num só fôlego, contemplando com freqüência   a linguagem da luz, das metáforas, das palavras evocadoras dos sentidos, numa imensa ‘sinestesia de cores’ e termos relacionadas à natureza, em especial  flores, frutos e matizes que lembram o ocaso, bem ao gosto Simbolista. Há pontos de contato entre a escrita do livro A Jangada de Pedra  de Saramago e a Singradura do Capinador, no devir circunstancial, na fluência catalogadora dos sentidos e fotográfica das geografias presentes, sem paradas,  num imenso ir, prescindindo ponto final. Apresenta uma linguagem forte, verdadeira, com recorrência às metáforas, como se vê, circunstancialmente, na palavra-metáfora  caleidoscópio, utilizada no livro A Singradura do Capinador e em  passagens de outras obras.  Caleidoscópio é a multiplicidade das imagens e das combinações de cores e formas, é inquietador, mágico, fascinante,  passível de observação, requintado e simples, como é a obra de Luís Serguilha, poeta português atual. São faces do mesmo olhar em constante renovação e atualização, sem ter sido diferente. 

Não é reticente, suas pausas são ousadas, oportunizam  reflexões, através dos grandes traços simbólicos. Apresenta literatura diferenciada, com evidências para o que há de  humano, coletivo, embora se  ignore  sua  representatividade em traços pontuados, através dos versos derramados nas páginas de sua poesia-narrativa-feiticeira que aprisiona, atordoa, levando-nos ao esquecimento do próprio eu, em busca de uma identidade criadora única, irrefutável e irreconhecível e ao mesmo tempo social, pois permite a reflexão. É uma leitura que  intimida, invade, amedronta, como se perdêssemos a respiração natural e compassada, para deixarmo-nos atravessar golpeados pelas suas palavras imagens; é uma invasão geográfica-psicológica-emotiva-racional,  com sentidos à boa violência em momentos de imersão, tão ao gosto do poeta. Enfim,  demanda conhecimento, leitura prévia, pelo vocabulário específico que apresenta, embora a essência seja voltada para TODOS, num sincretismo e agregação humanas indescritíveis. Ao mesmo tempo em que usa o termo jacaré, substantivo simples, comum e concreto, também pode se dar ao luxo do  uso do adjetivo cosmogónico e da palavra grega ‘Symballein’, conferindo ao natural a metafísica ampliada. 

A palavra “Symballein” (símbolo) significa compôr, reunir, juntar.  Na antigüidade, após o objeto ser quebrado, reunia-se e identificava-se o grupo através da posterior união dos seus pedaços,  desta forma,  o símbolo foi sempre para o homem um elo  do visível com o invisível, do natural com o sobrenatural. Por isso, a linguagem simbólica é a linguagem da religião, pois trata a realidade que escapa à compreensão humana. Nos textos de Serguilha este ato ‘Symballein’ é feito e refeito várias vezes na dinâmica do texto poesia-narrativa, em que se fragmenta e se espalham as idéias e, posteriormente, percebe-se que lá estão unidas em novo e caudaloso rio de versos. Cria, nega, recria, positiva, recolhe. 

Luís é hipnótico ( . ) e encanta, quando abre um universo de possibilidades ao pensamento, na leitura imensurável e, de certa forma, atlética de suas antíteses,  paradoxos e paralelismos. Quando “anestesia os sentidos”, pela enxurrada de imagens, quando deixo de ser eu-leitor-condutor, para ser leitor-conduzido por estes caminhos e desvãos. Na obra A Singradura do Capinador há um número  maior de metáforas que tratam da luminosidade, em relação às outras obras do autor. Há a  presença forte das  cores que vão do amarelo ao vermelho, passando pelo laranja. Ainda há  momentos de intensa beleza  e leveza, como na passagem abaixo, sem esquecer do azul, também recorrente nos textos, como forma de remissão, tranqüilidade, contrapondo-se à luz que cega, desnorteia, paralisa, eis o recolhimento, o aconchego neste barroquismo evidente e sinestésico:

  “…para isolarem os trampolins acústicos dos manequins atlânticos                                          

e as lanternas das bailarinas espontâneas modelam         

as libações das borboletas submarinas    …”                         

  

Ainda:

            ” …Os nardos das cogitações desenfaixam as sinfonias-pastos… nas movimentações dos gladíolos das bailarinas.” (  Processionárias, 2008 )

A palavra nardo possui muitos significados, dos quais óleo aromático extraído de uma planta da Índia, o qual era de grande preço (Mc 14.3 a 5 – Jo 12.3 a 5). Nalgumas passagens do A.T. há referências ao seu uso como sendo um perfume (Ct 1.12 – 4.13,14). Nos mencionados textos do N.T. a palavra grega, com um qualificativo, tem a significação de ‘nardo pistico’. Espiscanardo vem da expressão da Vulgata Latina ‘Spicati nardi’, uma referência às espiguetas que se encontram na base da planta, e das quais se extrai o perfume. Também é província da Itália, além de se acreditar que o seu perfume atua eficazmente sobre a consciência dos artistas. Onde quer que haja arte e beleza a sua fragrância  deve estar presente. E não é por acaso que Luís evoca o nardo; pede à consciência a todo momento a sua presença avassaladora, por meio das palavras que escolhe para a composição do texto-pretexto. O aparente acaso das palavras, como disse, é aparente. Não há acaso, há disposição experimental de texto na união de cada termo ou expressão, que se junta no grande agrupamento do grande texto ÚNICO, como única é a visão que Serguilha tem da humanidade e dos caminhantes nas terras que lhes cabe. A individualidade só se presentifica na união. A individualidade só faz sentido na composição do todo harmônico fragrante, sensual, táctil e vibrátil das energias cósmicas totalizadoras.

            Alça-se vôo do  pequeno ao grande mundo, da geografia das pequenas cidades à intensidade povoada da metrópole , são as processionárias intercontinentais, assumindo o volante e a poluição sonora ao crânio sazonado ( antropofagia ), à destruição, “onde a dentadura  alcoólatra dos turbilhões degola as  polpas das úlceras dos arranca-pinheiros fugitivos.” E  termina, nesta passagem, com o gladíolo das bailarinas”. 

Serguilha utiliza, em seus textos, palavras portuguesas, tais como chochorrubiar e belígero, sendo que esta última remonta a Camões, o grande épico universal da Literatura Clássica Portuguesa. Acredita que a Literatura Brasileira e Portuguesa devem se afinar, através da transmigração das idéias, do conhecimento, da partilha, do diálogo, das urgências  no combate à involução, das reaprendizagens mútuas, onde se possa interrogar os mistérios da Natureza e a condição humana, sem nos sentirmos sós, ou onde possamos nos sentir e perceber como parte do rizoma, humano e desumano ao mesmo tempo, ameaçador, estonteante, desafiador, criador e criatura.

Faz apontamentos analíticos, tais quais: “Ficamos mais ricos quando o dialogismo se abre à intimidade pura, à heterogenidade, ao desassombro selvagem e à metamorfose poética para regressar à gênese, ao mistério, à vida absoluta. Afirma que “nesta gestação de processos interrogativos que reactualizamos a força da linguagem. É urgente combater a vulgaridade, o esvaziamento, a banalidade com o corpo resistente da essência da palavra que tenta buscar o infinito e desvendar a esfinge que persegue a humanidade.”, ainda, pontua com severidade e determinação que “É urgente o diálogo, a partilha neste mundo de barbáries…, o confronto e a sintonização com o outro enriquece-nos… literariamente, humanamente.”  E reitera: “… sei apenas que tento transformar a vida, o subsolo da vida, com as armadilhas da luz, as subducções da lava do corpo e da energia da palavra.”

            E politiza com traços de reflexão e visão social, sobre o que nos incomoda e nos toca no cotidiano, vítimas da organização vigente, ao qual estamos inseridos sem escolha, ou com pouca escolha e vítimas da  resistência ao comum e já acabado,  ao  que consumimos e que nos leva por estes desvãos, longe da luz e da beleza-natureza  pontuada em suas obras, em reticentes paradas e retomadas da biologia, da constituição humana, da pessoa, como se pode observar nesta citação apontada por ele, em uma de suas entrevistas:  “Alguns meios da comunicação social fomentam o voyeurismo cavernoso e miserabilista, estimulando os instintos vampiristas da barbárie e da crueldade. Este parasitismo sensacionalista provoca o medo e angústia nas pessoas. A depressão e a tragédia vivem num terreno comum.”

            Este é o ponto de convergência de sua obra: a essência e a razão. A procura dos vários significados da palavra, da expressão, dos versos e a certeza de que se tem a chave. Pergunto:_Onde está Luís  Serguilha neste exato momento do texto?  Que viagem onírica e intensa processa e o projeta ao infinito e útero fecundidade de todas as mães? Tento acompanhar o seu pensamento, a sua interioridade profunda. Sinto-me, confesso, um pouco  perdida, é vastidão, é o Universo como a criação conspirando e lançando faíscas para todos os lados, se há lados. E o próprio me afirma, que anda sempre meio perdido, porque procura o que não existe. Não se pode acreditar no que não existe, pois seus textos questionam a todo momento o que existe. Uma constante busca, entre achar-se e se perder. 

Ainda, afirma o escritor: “É URGENTE A TRANSMIGRAÇÃO E A REVOLUÇÃO DO IMAGINÁRIO”

Então vamos com ele, em suas obras, descobrindo como transmigrar e como revoluzir a imaginação fecunda,  que está em nosso íntimo esperando a chama de uma tocha reluzente, que nos faça em fogo atravessando países e fronteiras,  voltando ao princípio, ao grande poema original do Criador, na sua força imanente e pronta para desabrochar em cada ser. Podemos encontrar em Embarcações e em O Externo Tatuado da Visão semelhanças em sua forma e conteúdo;  já Lorosa’e  possui um ritmo mais acelerado e intenso, mais emotivo, substancial. No entanto, Processionárias, além de lírico é audacioso em sua forma e linguagem viscosidades, gelatinas, fluidos, lodacentos, cartilagens, suculentas, a própria processionária.  Em Hangares pode-se observar as palavras portuguesas funambulismo,  grafonola,  manadeira,  ainda palavras como chochos……….neologismos……….borboletas……….libélulas……….As lantejoulas-feiticeiras……….da virgulação das roseiras……… odontíase………..fivelas nas ombreiras de luz a desencadearem a sombra incerta da cravagem da locomoção………….olhares-dicionários-de-turbinas-zodiacais, … moscardos …, num interminável rio de apontamentos. Enquanto isso, as ameixoeiras fartas florescem e, generosamente, rendem seus frutos açucarados e suculentos, fazendo a peregrinação do colibri amplificar o batimento mais interior do vendaval. E as faúlhas cravam-se no céu, imensamente, acolhedor e transatlântico de Serguilha.

            Há um início, há  começo, não há fim. Na parte III de Embarcações há, como em toda a obra, a  presença da luz, muito amor, erotismo e reverência à amada. É  cuidadoso, atencioso e humano. Brinca com o ser e  o não-ser. Parece coadunar-se com a idéia de que  “é preciso observar que tudo surge do nada e tudo segue para o nada. E que se trata de valor eminentemente positivo. Somos peixes nas ondas do Nada. O Ser é a rede.O Céu na Terra e a Terra no Céu.”  Como disse um místico, se a matéria é espírito denso, o espírito é matéria sutil, por isso mesmo, Rûmî não abandona a enumeração, a ‘ladainha’, pois na raiz dessa diversidade revela-se mediante imagens incessantes a presença do Amado: “  (Marco Lucchesi – Rio-Petrópolis, 17 de novembro de 1999 ) E Luís Serguilha não abandona o seu interminável texto, que passa de página em página, de livro a livro, compondo a sua grande obra.  Como o ‘fiat’ do Gênesis criou-se um mundo de possibilidades, o autor lançou-se de  um fogo de imagens passando pela ótica da LUZ, numa interminável ladainha, como no trecho abaixo:

 

” O esforço do fogo volátil ordena a indolência calamitosa das árvores

  O esforço do fogo volátil desenraíza as irregulares fisionomias das perguntas

  O esforço do fogo volátil emudece as genuflexões dos mamilos

  O esforço do fogo volátil embranquece as correspondências das marchas – sustentadas pela abundância das víboras hipnóticas

 

  A inteligência do fogo permanece nos êmbolos salitrosos das trepadeiras

  ininterruptas…”( pág. 59 de A Singradura do Capinador)

A repetição acima reforça a idéia do passageiro, do movimento, a fixação do momento fugaz, o que te consome e alenta num barroquismo evidente  da obra de Serguilha, o contraditório, o ser e o não-ser, os espelhos que se contrapõe, numa visão ora distorcida, ora real e não imaginária. Um espelho que não permite reflexos, só reflete.

A sua obra é única, indivisível, com breves pausas, para que o leitor respire e tenha a sensação ilusória de que há parada. Perde-se a respiração, fica-se mudo com vontade de voltar,  a imensidão é tamanha, inexplicável como o próprio Deus e as vontades humanas de nomeá-lo e entendê-lo. De tudo,  sabemos que há um início e o segredo está na contradição das antíteses, que reverberam a própria vida no jogo luz/sombra primordial ao silêncio construtor das idéias, dos sentidos, das formas humanas, do jogo intelectual, das discórdias, das brincadeiras, das manipulações, o eu/tu (branco/preto… tinta/página) as  luzes do sol, as rendas, a maciez, o rugoso, presente.  Em  Embarcações  o sol surge como um coador, regador, num inominável silêncio, os motivos da criação os amplifica, dando-lhes sentido, neste orbe confuso, de tantos desencontros, o encontro da divindade em elementos da natureza, codificando a página discreta e elemental da vida, como o é discreto e silencioso o próprio autor, repudiando barulhos e desnecessidades.

A busca de explicação traduz-se em palavras a serem lidas e fruídas sem ordem, somente vividas, aliviando o trauma de uma existência sem sentido, todo dia igual e, enormemente, diferente. Tão individual e tão coletiva, tão singular e tão plural, tão significativa e ao mesmo tempo carente de significação. A saída é a luz, o voltar-se para esta transparência, que só é  possível pela mesma ausência. É o foco desmistificado, é a dura realidade, é a necessidade da sombra, para a projeção de radiosa luz. Estamos imersos na Sombra em busca constante, motivo de revelação das outras cores, a princípio diferentes, mas que no prisma confundem-se e são iguais. Não existe cor, somente a ilusão de muitas cores e quanto mais palavras, mais cores.

Voltemos à transparência radiosa para entendermos a não-cor presente no texto  colorido do poeta português. O não-existir, o ser e o não-ser, caminho de possibilidades, tentativa de imersão e emersão na obra de L.S., leitora acuada pela possibilidade das imagens, pela enormidade do texto difuso e ambivalente, pontuado de significações, como disse o escritor e poeta Cláudio Daniel, a obra de Serguilha “é uma selva de signos”, que me ameaçou, que me amendrontou e que quero desvendar, descobrir, pois há muita informação, muita riqueza em cada página, que livro a livro se apresenta  num contínuo. Ilusório dividir a sua obra, os seus livros, os seus escritos, eles ou elas são ÚNICOS E INDIVISÍVEIS, somente contínuos, somente contínuos, somente.

 Professora Kátia Torres NEGRISOLI 

 

 

Bibliografia:
 
- LUCCHESI, Marco (org. e tradução do Farsi); IN:”A Sombra do Amado – Poemas de Rûmî”(2000:Fissus Editora)

ESCRITA GALÁCTICA – caos, cosmos, caosmos na Poesia de Luis Serguilha

•Janeiro 25, 2011 • Deixe um Comentário

A poesia de Luís Serguilha nos faz perceber que O início é o caos, é do caos que nasce o movimento que cria e recria por meio de explosões, choques. Sua escrita nos remete a uma galáxia em que tudo flutua: solto, livre, formando as mais inesperadas constelações de palavras-seres-coisas-sons-sentidos-cheiros. Assim, o movimento permitido às palavras torna possíveis múltiplas formas de (re) significações, (re) combinações fazendo com que uma escrita fragmentária busque a sua impossível, improvável unidade, unidade mutável, reordenável. Tal característica sugere o grande mistério presente na escrita de Serguilha, pois cabe ao leitor identificar uma unidade para esse texto fragmentário; não uma unidade linear e contínua, mas uma unidade musical, sensorial, já que a leitura da poesia de Luís Serguilha inspira e aflora as mais variadas sensações.

O caos, na escritura do poeta português, pressupõe a criação: criação de uma nova forma de escrever, de ler, de apreender sensações; criação do mundo. Um dos inúmeros mitos que cercam o mistério da criação diz que Deus teria criado o mundo a partir dos sons, de modo que tudo tem como substância os sons. Quando Deus teria terminado de criar, sonoramente, o mundo, fez-se um grande Silêncio, o silêncio que vem depois de toda criação, o silêncio-palavra que fica para dizer. Pois sempre há o que dizer, inclusive através do silêncio, o silêncio após toda a criação. Como Serguilha, que nos faz perceber esse caos, constrói o seu texto entre sons e silêncios.

A obra de Serguilha é feita de imagens, suas marcas de leitura são construídas pela sonoridade das palavras, pela disposição destas na página, por esse movimento que nos sugere uma tentativa de romper a página, ultrapassar os limites de um espaço determinado para alcançar a espacialidade, o não-lugar, o lugar nenhum. Conforme evidenciamos na escrita do poeta:

                                      Numa ondulação intervalada de rastejantes substâncias magnetizas a espádua ilimitada das combinações

             que auscultam o exuberante deslizamento dos semáforos instantâneos

                                      onde os pilares escalavrados do sol parecem pássaros               de vantagens perfeitas (SERGUILHA, 2005, p. 22).

Uma escrita que não se prende a pontuações, aos paradigmas tradicionais, mas que almeja ser livre para criar outras estruturas, para dizer através da música, do silêncio, dos espaços em branco, aliando a página, a configuração espacial à sua própria tentativa de alçar voo

como um pêndulo de pássaros a desnudar a estampagem

                                                                             das maconhas pendulares

                                                                       sobre as câmaras-gafanhotos        

(SERGUILHA, 2008, p. 11)

Dentre as várias obras de Serguilha, encontramos títulos reveladores, que anunciam uma escrita particular, única e aleatória: Hangares do Vendaval, A Singradura do Capinador, Embarcações, O Murmúrio Livre do Pássaro, O Externo Tatuado da Visão, Lorosa’e Boca de Sândalo, O Outro, Périplo do Cacho e As Processionárias são alguns títulos que marcam um ponto para a escrita fragmentária, apesar de que os poemas incorporados em cada um desses livros seguem rumos diferentes, alcançando pontos outros, cada vez mais imprevisíveis.

A escrita caótica-galáctica tira o leitor do seu conforto, faz com que ele observe — tal como um astrônomo — as constelações e os astros no céu da Poesia. Essa escritura pressupõe que “rasguemos o firmamento e que mergulhemos no caos” (DELEUZE, GUATTARI, 1991, p. 260). A idéia de Deleuze e Guattari é que no caosmos — caos no cosmos — não há síntese ou uma tentativa de se conter ou de se superar o caos: o que há é uma vontade de entrar no mesmo movimento do Caos de modo a se criar um caosmos: “A arte não é o caos, mas uma composição do caos, que dá a visão ou sensação, de modo que constitui um caosmos, como diz Joyce, um caos composto — não previsto nem preconcebido.” (DELEUZE, GUATTARI, 1991, p. 263). A escrita caótica dá vazão ao pensamento, buscando exprimir a arte em sua essência, tornando-a sensível; no entanto no processo dessa criação escritural há dor:

Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, idéias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos (DELEUZE, GUATTARI, 1991, p. 259).

O poeta/escritor do Caosmos está sempre diante do desconhecido, do inesperado, do inusitado, do que nunca se entrega e nunca se mostra, do que escapa para dentro do Caosmos, podendo tanto haver criação a partir do choque quanto da distância, numa aproximação que causa explosões. Lembremos que a teoria do big bang defende que o mundo se criou a partir de explosões. Por sua vez, Blanchot — convocando Mallarmé — diz que a única explosão é um livro.

Mallarmé — poeta também galáctico, caósmico —, em sua obra Un coup de dés jamais n’abolira Le hasard (1897), faz nascer uma nova forma de escrever poesia, apontando para o vazio da literatura e para as explosões das palavras que giram num movimento galáctico pela página. Esse vazio se configura em sua literariedade, pelos espaços vazios ao longo do papel, mas também pelo vazio final da literatura, pois ao desejar abarcar infinitas significações permitidas por essa escrita poética percebe-se, também, o paradoxal embate entre a completa significação e a ausência de entendimento, de sentido. Ressaltamos essa ausência de sentido no que se refere à concepção tradicional de inferir sentido a uma obra, pois para a escrita galáctica o sentido, a significação são relacionados às sensações, aos sons e à apreciação das palavras livres pela página.

A linguagem tem uma função negativa (ela não presentifica o objeto, mas o torna ausente), e é essa função negativa, levada até o silêncio, não como uma falta de sentido, mas como distância eloqüente, que deve ser acentuada pelo poeta. (…) O poeta, enquanto indivíduo, desaparece em sua fala, para que nesta o leitor se comunique com sua própria linguagem. (PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 122).

Uma obra que visa à totalidade e o vazio, pois já sabendo ser impossível alcançar a totalidade permanece-se percorrendo este caminho, caminho único que faz com que uma obra seja literária. Para chegar a essa totalidade, Mallarmé vislumbrava o entrecruzamento das palavras, a bifurcação dos caminhos, o movimento contínuo e infinito,

Um ancoradouro de lantejoulas lateja na recriação ligeira

das moradas nupciais

                         desbravando a pausa ilusória que decompõe o dilúvio

cronológico da voz (SERGUILHA, 2002, p. 12)

A poesia de Luís Serguilha se instaura, numa perspectiva blanchotiana, na ausência do livro, através de uma relação inusitada entre a escrita que visa dizer o indizível e as palavras que nada dizem ou que dizem o Nada. Uma escrita fragmentada e que por isso mesmo tem o fragmento como parte de algo, mas também como algo independente. Assim, a disposição das palavras na página, o movimento que rompe as margens dando a sensação de uma escrita infinita se direcionam ao mesmo tempo a todos os pontos da escrita e a nenhum.

Como uma expansão galáctica, percebemos no texto o movimento não só de palavras como também das figuras, da musicalidade, do vazio, juntos formando um todo único, indissociável que compõe os demais numa relação de inter dependência para que existam:

é este o triângulo-canino das ocupações

                      anárquicas dos meridianos incendiários

que anuncia o adensamento

                    da matéria arterial do riacho-gladiador

                                                                 (___ limalhas-batuques das parábolas-persianas

                                                emolduradas espantosamente

                                                                       pela concupiscência-sonoridade-radioactiva

                                                       das mil raias das caminheiras___)

(SERGUILHA, 2008, p. 13)

Ouçamos aqui os ecos do poema-em-prosa ou prosoema ou proema Galáxias de Haroldo de Campos que também perpassa essa expansão galáctica pelo “fluxo de signos, sem marcas de pontuação ou letras maiúsculas, fluindo ininterruptamente sobre a página” (OLIVEIRA, 2007, p. 123):

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço o arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever  mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites milumapáginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas (CAMPOS, 1984, s.p).    

Serguilha — assim como Haroldo de Campos — faz uso de palavras-valise a fim de criar novos sentidos, novas imagens. A palavra-valise é um tipo especial de neologismo,  sempre formado por duas ou mais palavras, sendo, portanto, uma palavra composta. A mistura de sons, de formas gráficas e de sentido leva ao surgimento de uma nova palavra, palavra trabalhada/lapidada para se encaixar num contexto poético e para significar o que aquele contexto pressupõe. Assim, percebemos que tais palavras fogem das definições, pois são múltiplas e polissêmicas. 

Em vista de todas as considerações aqui retratadas, vislumbramos que a obra de Serguilha tem a página como universo, galáxia, em perpétuo movimento de criação e transformação. Um texto aberto que permite a entrada de um leitor-astrônomo contemplando a disposição dessas palavras-astros pelo poema. E, acima de tudo, um poema-vida, ou seja, uma escrita que pressupõe um ciclo da vida: a escrita / vida continua mesmo que não percebamos um laço, uma continuidade. A obra de Serguilha traz uma escrita galáctica, fragmentária, musical que abrange a continuidade infinita da vida…

          Os trilhos interestelares dissecam harmoniosamente

                       a constituição do pólen ao inaugurarem as oradoras arquitecturas

dos pássaros vegetais

                           e os ligamentos puros da guitarra-relâmpago desbloqueiam o

sorriso da embarcação nupcial

                                                 para respirarem uma pátria de virilhas sonoras

(SERGUILHA, 2005, p. 111)

Obras de Luís Serguilha

As Processionárias (São Paulo: Demônio Negro, 2008)

Hangares do Vendaval (Évora: Intensidez, 2007)

A Singradura do Capinador (Lisboa: Indícios de Oiro, 2005)

Embarcações (Vila Nova de Gaia: Ausência, 2004)

O Murmúrio Livre do Pássaro (Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003)

O Externo Tatuado da Visão (Vila Nova de Gaia: 2002)

Lorosa’e Boca de Sândalo (Porto: Campo das Letras, 2001)

O Outro (Braga: Correio do Minho, 1999)

O Périplo do Cacho (Braga: Correio do Minho, 1998)

 
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